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PRA MIM PARECE ÓBVIO

POR FÁBIO CHAP

​”O quê queremos? 

Reduzir a violência no país. Frear a monstruosidade dos crimes que devastam o Brasil.
Como vamos fazer isso?

“Alimentando o lado monstruoso dos criminosos. Amontoando pessoas até elas não conseguirem respirar. Tratando gente feito bicho, que é pra quando eles saírem da cadeia morderem com ainda mais violência.”

 Sei lá, não é uma questão de lógica que as coisas têm que ser diferentes do comentário dessa mina? 

“- Ah, Chap, mas e as vítimas dessas pessoas?”

Bom, elas não vão voltar porque você vai tratar preso igual bicho. Pelo contrário, o cara quando sair da cadeia não vai conseguir um trampo, nem uma vida normal e vai voltar a roubar. E vai te roubar/matar com ainda mais violência.
 Pra mim parece óbvio que alimentar o monstro dos criminosos faz esse monstro ficar ainda maior. Não consigo entender porque isso não é óbvio pra outras pessoas. 

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VAI LÁ E FAZ AMIZADE COM A DOR

POR FÁBIO CHAP

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A vida nos aperta pelo pescoço. Ameaça nos devorar e engolir em cada sonho mais ousado. ‘Se ponha no seu lugar’, diz a vida. E pra que a gente não dê passos a mais, ela nos afoga.

Minutos sem respirar. Dias sem respirar. Anos sem respirar. Mais mortos do que vivos, aguentamos. Prendemos a respiração e encaramos a porra toda. Dá medo, mas a gente abre mais uma porta e dá mais um passo. Uma porta, um novo passo. Outra porta, mais um novo caminho todo.

O boleto nos preocupa, o amor nos preocupa, a família nos preocupa, a política, então… Mas em meio a todo o caos, eu existo. É preciso que eu me preocupe, também, comigo. Nessa gigantesca jornada, existe você, é preciso que você se preocupe, também, com você.

Não podemos nos anular em nome de boleto, do amor ou da família. Se não dá pra gente saber nosso lugar no mundo, pelo menos dá pra gente saber nosso lugar na nossa própria vida. E não esquecer que ela – a tal vida – aperta o pescoço mesmo. Não se deixe morrer, há muito pra viver, então vai lá e faz amizade com a dor.

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FIZ PAPEL DE POSTE

POR FÁBIO CHAP

Na sexta-feira passada eu fui tomar uma cerveja com um amigo que tá com problemas de relacionamento. Ele ficou mais ao celular – tentando resolver seus conflitos – do que com a gente. Na prática, ele não estava fisicamente com ela, nem mentalmente com a gente. Ele tava em lugar nenhum.
4 dias depois a história se repetiu, mas com outro amigo.

Terça-feira eu fui tomar uma cerveja com um amigo que tá com problemas de relacionamento. Ele ficou mais ao celular – tentando resolver seus conflitos – do que trocando ideia. Na prática, ele não estava fisicamente com ela, nem mentalmente comigo.

Como eu me mostrei levemente incomodado com meu papel de poste, ele diminuiu um pouco o uso do celular. Em dado momento ele deu a desculpa mais épica entre as desculpas épicas: 

– Nossa, preciso colocar o celular pra despertar pra amanhã. Melhor colocar agora do que esquecer depois quando eu tiver doidão.

É óbvio que ele só falou isso pra ter licença poética de pegar o celular e ver o que ela tinha respondido.

Nessa hora eu disse a ele que ele não tinha um relacionamento, mas um vício. E que os vícios atrapalham todas as outras áreas da vida. Quando se está viciado, você simplesmente não consegue fazer mais nada direito. E é o que tá acontecendo com ele e com outros amigos que se enfiaram em relacionamentos que fazem mais mal do que bem.

Os celulares criaram algo incrível: você poder estar em vários lugares do mundo ao mesmo tempo ou em nenhum. Nem lá, nem cá, nem em nenhum lugar.

No Domingo eu vou tomar uma cerveja com um 3º amigo que está com problemas graves de relacionamento. Espero que ele leia esse post e não me faça de poste.

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LETÍCIA E RAFAEL

POR FÁBIO CHAP

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Letícia é racista. Dia desses um homem negro chegou nela na pista da balada. Rafael perguntou se ela estava acompanhada.

Letícia não respondeu nada. Só fez cara de desprezo. Rafael não pediu beijo, não invadiu o espaço dela.

– Não rela em mim, cara.

– Mas não encostei em você, moça. Só tô querendo saber seu nome mesmo.

– Sai daqui, macaco, antes que eu faça uma gritaria.

– Como é que é? Do que você me chamou?

– Olha, tô sem banana na bolsa. Já disse pra você sumir daqui ou eu faço um escândalo.

Rafael não suportou o papel de humilhado. Olhou pro lado, ninguém olhava.

– Vadia! É isso que você é. Uma branquela puta que vem aqui só pra chupar Playboy no camarote.

Letícia se chocou. Note o ciclo que se forma. Note a norma da agressão como funciona. A roda começou no racismo e pouco a pouco ambos estavam num abismo de misoginia.

Rafael deu um puta soco no estômago de Letícia que caiu ajoelhada na pista. As amigas correram na direção dela pra ver o que tinha acontecido. Ver o perigo que ela corria. Rafael sabia que seria punido, optou em correr pra pagar a conta e sumir daquela balada.

Letícia, ainda ajoelhada, apontava pra Rafael e dizia:

– Pega esse filho da puta. Ele me bateu. Pegaaaa esse preto desgraçado, pelo amor de Deus!

As pessoas ao redor estavam chocadas. Um soco no estômago literal e outro figurado. O racismo foi que começou o ciclo e esse seguiu descontrolado rumo à violência contra uma mulher.

No meio da pista as pessoas começaram a fazer vídeos da mulher agredida e ajoelhada proferindo xingamentos racistas, gritando: ‘Filma mesmoo, macacada!’

Dias depois caíram os vídeos na internet; que foram parar na TV. Rafael foi preso uma lanchonete enquanto assistia sua agressão no Datena. A garçonete não teve pena e chamou logo a polícia. Os outros clientes seguraram Rafael, que tentou fugir. Em vão.

Letícia levantou do chão. Havia semanas que aconteceu tudo isso. Mas Letícia, mais que nunca, estava à beira do precipício. Uma amiga indignada disse que a história inteira tava errada. Não só a violência de Rafael, mas também a violência de Letícia que chamou um homem de macaco e o ofereceu banana na pista.

Letícia foi trucidada na internet. Caíram vídeos dela fazendo piadas racistas em festas da faculdade. Se liga só no papo da garota:

– Sabe, o saquinho de supermercado? É branco! O de lixo? É preto!

E se tem uma verdade, uma moral nessa história toda é que vez ou outra a vida é clara em nos mostrar como funciona o ciclo de ódio. Mais desenhado que isso, impossível. Mais perturbador que isso, difícil.

Rafael pegou 4 anos de prisão. Letícia 6 meses e 15 dias. A internet entrou numa catarse comemorando a decisão. Bradavam que, às vezes, a justiça funciona, mas só quando vem à tona a história completa.

Uma coisa é certa: Rafael e Letícia são exemplos da torta visão de que devolver ódio com ódio dá em mais ódio. Essa é a pior equação.

Sabe os racistas? Sabe os agressores? Já é século 21 e eles não passarão.

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LAVE A CALCINHA DA SUA ESPOSA

POR FÁBIO CHAP

Lave a cueca do seu marido. Seja você a esposa ou o marido dele. Use sabão em barra e pendure pra secar ao sol.

Lave a calcinha da sua esposa. Seja você o marido ou a esposa dela. Cuidado com as lingeries mais delicadas, elas demandam cuidado especial pra renda não estragar.

Lave a louça pro seu marido que, hoje, está cansado. Dê-lhe um beijo na testa, recomende que leia um livro e diga que você dará conta do trabalho de casa nessa noite.

Lave a louça pra sua esposa. Ela trabalhou até as 22h, está cansada física e psicologicamente. Foi um dia duro. Uma massagem nos pés vai ajudá-la a relaxar. Por quê não escolhe um jazz e a coloca pra dormir? Não esqueça, depois, de passar aquelas roupas e pendurá-las. As suas e as dela.

O problema não é ela lavar a cueca. O problema é quando ele não lava a calcinha. O problema não é ela lavar a louça até deixar a pia brilhando. É ele achar que a pia é pra ela e lavar o carro é pra ele. O problema é ele achar que tem que receber comida quentinha na mão, mas nunca revezar, ir buscar o pão e passar a manteiga pros dois, não só pra ele.

Um casal hétero ou homossexual precisa dividir todas as tarefas. Companheirismo não é só sonhar junto que quer visitar a Europa, viajar de balão, é entender que aqui onde se vive tem muito a se fazer. Muito o que se ajudar. Duas boas cabeças e duas pessoas de atitude e iniciativa se ajudam mutuamente. Crescem e voam mutuamente.

Lave a cueca do seu marido. Lave a calcinha da sua esposa. Um casal bem sucedido se ama, se lava, se cresce, se cria, se recria e o principal de tudo: se ajuda a viver e a ser feliz. 

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[fábio chap]

PERDEMOS MAIS UM ROCK STAR PARA O SUICÍDIO

POR FÁBIO CHAP

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Hoje perdemos mais um rock star para o suicídio. Chester, o vocalista do excelente – e importante – Linkin Park foi encontrado morto. Enforcado. Suicidou.

Esse suicídio ocorreu 2 meses depois do suicídio de outro rock star: Chris Cornell, do Audioslave/Soundgarden. Chester se matou no aniversário de Chris; um de seus melhores amigos.

Isso tudo me provoca profunda reflexão. Eu, Fábio, tive bandas de heavy metal a minha adolescência inteira. Ouço heavy metal até hoje. O rock n’ roll moldou e mudou por completo a minha vida. Eu, inclusive, nasci no Dia Mundial do Rock; 13 de Julho.

Eu compunha letras, eu tocava baixo, eu inclusive berrava (cantava) de vez em quando.

Mas só há alguns dias me liguei numa coisa: é preciso que a gente tenha consciência de qual mensagem o rock n’ roll e o heavy metal querem passar ao mundo. E, por isso, qual mensagem o rock n’ roll e o heavy metal passam aos seus próprios profissionais e praticantes.

Muito cedo eu fui atraído pelo tipo mais extremo de heavy metal: o death metal. E o death metal pode ser tão extremo quanto o nome sugere. As letras muitas vezes são sobre mutilações, cadáveres, mortes das mais violentas imagináveis; não é mesmo, Cannibal Corpse?

E não estou sugerindo que os músicos dessas bandas são pessoas desorientadas na vida ou mesmo praticantes daquilo que escrevem em suas letras. O ponto aqui é: carreiras são formadas acerca de uma temática muito, muito pesada. Vidas são permeadas no entorno de energias muito densas. E é preciso que os músicos fiquem atentos com a mensagem que vão deixar para o mundo. Com a energia que emanam em seus shows, discos e etc.

Não é novidade pra ninguém que o rock está se tornando, cada vez mais, uma música de nicho. Um estilo de música que agrada apenas pessoas de 25 anos pra cima – e olhe lá. Simplesmente não vejo adolescentes formando bandas de rock n’ roll e heavy metal. A mulecada está em outra.

A mensagem do rock n’ roll está datada, se não datada, extremamente repetitiva. Quando não datada e repetitiva, a mensagem pode ser perigosa.

Sim, sexo, drogas e rock n’ roll podem ser maravilhosos. Desde 15 anos vivi esse lema. Mas, agora, com 30 anos, eu me pergunto: O rock n’ roll sustenta o que prega? O rock n’ roll aguenta o tranco da mensagem que joga no mundo? Minha resposta é: NÃO.

Perdemos Janis Joplin.
Perdemos Jimi Hendrix.
Perdemos Jim Morrison (The Doors).
Perdemos Elvis Presley.
Perdemos Sid Vicious (Sex Pistols).
Perdemos Bon Scott. (AC/DC)
Perdemos John Boham (Led Zeppelin).
Perdemos Kurt Cobain.
Perdemos Freddie Mercury.
Perdemos Raul Seixas.
Perdemos Cazuza.
Perdemos Renato Russo.
Perdemos Lane Stanley (Alice in Chains).
Perdemos Dee Dee Ramone (Ramones).
Perdemos Ammy Winehouse.
Perdemos Chorão.
Perdemos Champignon.
Perdemos Peu (Pitty).
Perdemos Chris Cornell (Soundgarden/Audioslave).
Perdemos Chester Benington (Linkin Park).

Dessa lista, todos morreram vitimados pelo ‘sexo, drogas & rock n’ roll’. Overdoses, suicídios e alguns casos de Aids. Claro, morrer com Aids nos anos 80 era menos fruto de irresponsabilidade e muito mais de fatalidade; mas é inegável dizer que o lifestyle do rock cobrou seu preço. Que liberdade sem responsabilidade cobra seu preço.

Muitos desses músicos deixaram filhos. Muitos arrasaram famílias quando partiram. Muitos desses músicos foram ídolos de multidões. Verdadeiras multidões.

Não, eu não parei de ouvir rock n’ roll e heavy metal. Ouço todo dia. O ponto é: agora com consciência plena da mensagem que ali se encontra. Se um dia o metal me pegou desprevenido e me levou de carona por aí sem eu me tocar, hoje não mais. Hoje eu digo que um filtro é necessário. Que cuidar da saúde mental é a coisa mais importante que um músico pode fazer por si, por seus filhos, por seus fãs. Que estar atento à mensagem que vai deixar pro planeta é a coisa mais importante que um rock star pode fazer.

O tempo da molecagem precisa acabar. Já têm sido mortes demais; famílias demais; fãs demais deixados pra trás.

Talvez eu ouça guitarras distorcidas e baterias a 200 BPM até o último dia da minha vida; o timbre está no meu sangue, na minha alma mesmo, mas cada dia mais me convenço que herói de verdade não morre de overdose. Herói de verdade cuida da família, da saúde mental, da mensagem que deixa pro mundo.

Em homenagem aos que partiram, devemos fazer mais que shows em tributo; talvez a construção de clínicas de saúde mental em seus nomes seria o melhor tipo de homenagem a ser feita. A homenagem mais responsável a ser feita.

Tenho certeza que antes de colocarem uma corda em seus pescoços, esses músicos deram gritos que ninguém conseguiu ouvir. Daí, sufocados de silêncio e dor, optaram pelo fim.

A vida adulta é mais que liberdade; quando acaba a adolescência a gente aprende, na marra, o peso da responsabilidade. Se o rock n’ roll aprender essa lição, ele volta a mudar e salvar vidas ao invés de apenas perdê-las dia após dia.

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NESSE MUNDO NINGUÉM PODE SER BOM

POR FÁBIO CHAP

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Nesse mundo ninguém pode ser bom. Sempre vão arrumar alguém ‘mais bom’ que a primeira pessoa chamada de boa. Por fim, esse é o planeta das comparações. Seja comparar quem sofre mais, quem ganha mais, quem pode mais. Ou quem sofre menos, ganha menos, pode menos.

Você é um rico, branco e progressista? Você não é bom. No máximo tá fazendo a sua obrigação. Boa mesmo é a Joana que lava roupa de patrão e aguenta as cachaças e machismos do marido há 30 anos. Ela sim é heroína.

Você é mulher, preta e pobre? Você não é boa. Não é boa apenas por conseguir combater o assédio, as humilhações, as frustrações. No máximo você é corajosa por seguir vivendo. Boa mesmo é a Giselle, que abriu uma Startup aos 22, fez pós-doutorado em Harvard/Oxford e hoje dá palestras motivacionais-empreendedorísticas ao redor de todo o mundo, quiçá na Lua também. Giselle é que venceu na vida.

Nesse mudo ninguém é bom. Simplesmente porque a gente não deixa ninguém ser bom. Ou não fazem mais que a obrigação, ou não fazem o suficiente. Não é assim que a gente vê todo mundo?

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