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POR QUE OS CRÍTICOS DIZEM QUE PAULO FREIRE É DOUTRINADOR?

POR RODRIGO RATIER
DE NOVA ESCOLA.

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Paulo Freire completaria 96 anos em 2017

Quando algum curioso me pede indicação de algum livro sobre Educação, trago a resposta na ponta da língua: Pedagogia da Autonomia, a última obra lançada em vida por Paulo Freire, em 1996. Foi o livro que me mostrou que a Educação podia ser algo diferente. Para ser mais preciso: podia ser algo incrível.

O ano era 1999 e eu tinha começado a dar aulas num cursinho comunitário que ajudei a fundar. Primeira experiência em sala, eu falava mais que a boca – hoje me pergunto o que tanto dizia – e puxava lousa numa sala enfileirada. Ensinava como tinha aprendido, e com Freire aprendi que isso tinha um nome: Educação bancária, em que a gente se ilude achando que pode “depositar” o saber na cabeça dos alunos…

Pedagogia da Autonomia apresentava uma outra Educação. Em lugar do ensino transmissivo, o aprendizado construído pelos educandos com auxílio do professor.

Freire me mostrou que a Educação podia ser mais potente. Me aproximei dos alunos, mudei minha prática — e algumas coisas deram tão certo que me apaixonei pela docência a ponto de largar o jornalismo por um breve período só para dar aulas. Depois me reconciliei com a comunicação e há quase duas décadas levo junto as duas profissões.

Freire, o culpado pelos males do mundo

Divago, mas por uma razão. Toda vez que publicamos qualquer coisa sobre Paulo Freire há elogios, mas também aparece um bom punhado de comentários enfurecidos. Com esses últimos me espanto. Atribuem a Freire a culpa por tudo. Dizem – e aqui cito literalmente o que leio – que ele é o grande responsável pela má qualidade da Educação brasileira. Justo o Freire, nosso intelectual mais reconhecido no mundo…

Volto à Pedagogia da Autonomia e tento descobrir indícios dessa “culpa”. Não a encontro – e penso: um julgamento tão disparatado em relação a tudo que ele fez e escreveu só é possível em tempos estranhos como o que vivemos. Tempos em que a perigosa mistura de ignorância com sede de justiçamento guia o debate.

Talvez o aniversário de 96 anos de nascimento do patrono da Educação brasileira seja uma boa ocasião para vermos se param de pé os argumentos condenatórios. As acusações mais frequentes: Freire teria desmoralizado a profissão docente; seria o responsável pela perda de autoridade do professor; era doutrinador; e estava preocupado em criar um exército de militantes.

Por partes.

A defesa do professor como um profissional

A alegação de que ele teria destruído a autoridade do professor é, para mim, talvez a mais difícil de entender. Freire nunca disse que professores e alunos são iguais. Aliás, em Pedagogia da Esperança, ele afirma justamente o contrário:

“Os professores não são iguais aos alunos”.

A principal diferença, ele diz, é o conhecimento didático do educador. Ele precisa saber o que ensinar, como ensinar e ensinar a pensar. São essas – novamente suas palavras – as especificidades da tarefa de educar. É um equívoco dizer que Freire defende que o professor seja um militante (volto no final do texto). Ele defende que o professor seja… um professor!

Freire afirma que o educador deve ser um intelectual, pesquisando sobre seu ofício e, principalmente, refletindo sobre sua prática para melhorá-la. A atividade de ensinar é algo sério e que deve ser tratado com todo o rigor, como ele diz em Pedagogia da Autonomia:

“O professor que não leve a sério sua formação, que não estude, que não se esforce para estar à altura de sua tarefa, não tem força moral para coordenar as atividades de sua classe.”

A autoridade não vem do medo, mas do conhecimento

Para Freire, o investimento do professor em aprimorar seu conhecimento é central. Além de ser a razão da profissão, é do conhecimento que emana seu respeito e autoridade. Freire combate o medo e a ameaça como estratégias docentes. Isso é autoritarismo, o sufocamento do pensar do educando.

Para ele, deve-se buscar o diálogo como forma de construir conhecimento, respeitando o “saber de experiências feito” – ou seja, os conhecimentos que qualquer pessoa traz para a sala de aula. Isso não significa envergar a vara para o polo oposto e instaurar um clima de “liberou geral”. Freire é claro ao dizer que tanto autoritarismo (exagero de autoridade) quanto a licenciosidade (ausência de regras) são rupturas do equilíbrio entre autoridade e liberdade. A disciplina, ele diz, só surge quando ambas estão presentes. É o que o professor deve buscar:

“Resultando da harmonia ou do equilíbrio entre autoridade e liberdade, a disciplina implica necessariamente no respeito de uma pela outra, expresso na assunção de que ambas fazem parte de limites que não podem ser transgredidos.”

Nesse sentido, erram tanto os professores que esmagam os alunos quanto os que não estabelecem normas:

“O professor que desrespeita a curiosidade do educando, (…) que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que ‘ele se ponha em seu lugar’ ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, (…) transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência.”

Em vez de doutrinação, curiosidade e questionamento constante

“Doutrinador” é o oposto do que Freire sempre foi. Pedagogia da Autonomia expressa com clareza a importância que ele confere à curiosidade e ao questionamento. São os motores da Educação. É por meio deles que os educandos constroem conhecimento. Aliás, é pondo em xeque o que sabemos que todos nós aprendemos. Inclusive o próprio Freire, que se definia como um “ser inacabado”, condicionado histórica e socialmente, capaz de mudar justamente por reconhecer esse condicionamento:

“Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele.”  

Freire defende a mudança. Para que ela ocorra, ele diz, é necessário, inicialmente, estar aberto a pontos de vista opostos. E a constantemente criticar – palavra sempre usada por Freire no sentido de questionar – diferentes opiniões. Especialmente a sua própria:

“Uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiadamente certo de nossas certezas.”

Situar a militância no contexto histórico

Por fim, a questão da militância, e de sua preocupação em formar – aspas necessárias – “exércitos de seguidores”. O que está em jogo, aqui, é a acusação de Freire ter defendido governos comunistas e de pregar a favor da revolução.

Não se trata, nem de longe, do cerne de sua obra. Esta baseia-se como dissemos, no diálogo como teoria e prática da Educação, em que a função do professor – vale repetir – é saber o que ensinar, como ensinar e ensinar a pensar. Freire não pratica nem defende o proselitismo. Desconsidera-se, também, o contexto em que muitas dessas colocações foram feitas – nas décadas de 1960 e 1970, durante o auge da Guerra Fria, com Freire exilado pela ditadura militar brasileira. Ainda, congela no tempo o que ele escreveu, como se fosse sua opinião definitiva e escrita em pedra, e não a de um ser inacabado, em constante autocrítica.

Penso que a chave de leitura sobretudo dos escritos mais antigos de Freire precisa considerar os aspectos acima. E também aplicar a metodologia freireana do diálogo, exercitando o pensamento crítico e a empatia com alguém que, afinal de contas, é de carne e osso. Freire não é um oráculo. Não é Deus.

Exercitando o pensamento crítico que ele tanto estimulou, posso não concordar – e não concordo – com essas opiniões específicas. Mas posso compreender as razões que levaram Freire a defender, num determinado momento histórico, regimes que cedo ou tarde se tornaram ditaduras. O fato é que ele sempre se posicionou, fez escolhas – e, em alguns casos, pagou o preço por elas.

Nunca teve medo de enunciá-las. Leu Marx, trabalhou com o conceito de classe, mas não se limitou a ele: definia-se como um progressista, encarava a realidade como injusta e lutava para fosse outra. Como tantas vezes repetiu, não enxergava a Educação como coisa neutra. A que ele propunha, evidentemente, também não era. Entre enquadrar os alunos ou ajudá-los a serem autônomos, ele opta pela emancipação. Entre a Educação que reproduz desigualdades e a que as transforma, ele opta pela transformação. Utopicamente, Freire defende uma transformação radical. Numa palavra, revolucionária – é nesse sentido, que não tem a ver com tomada violenta do poder, que ele emprega o termo em Pedagogia da Autonomia.

Você pode concordar ou discordar. Para mim, os pontos centrais das ideias de Freire fazem muito sentido. Seguem atuais e me ajudaram em minha atuação como professor. São um sopro de esperança nessa época dura em que vivemos. Você pode pensar diferente. Acho que ele, como homem do diálogo, o chamaria para uma conversa. Como a ocorrida com o pesquisador americano Chester Bowers, em 1987, que ele relata em Pedagogia da Esperança:

“Discordamos quase totalmente durante uma hora e meia sem que, porém, precisássemos nos ofender, nos destratar. Simplesmente defendíamos nossas posições que se contradiziam, mas não tínhamos por que distorcer um ao pensamento do outro.”

 

ORIGINAL: https://novaescola.org.br/conteudo/6774/por-que-os-criticos-dizem-que-paulo-freire-e-doutrinador

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EDUCAÇÃO INFANTIL É LUGAR PARA HOMEM? ELES MOSTRAM QUE SIM

A baixa participação de homens nessa faixa da educação tem raiz em grande medida na divisão sexual do trabalho, social e historicamente motivada.

POR GUILHERME AZEVEDO
DO UOL, EM SÃO PAULO
FOTOS: RICARDO MATSUKAWA.

Os professores Douglas (esq.) e Eduardo formam uma minoria na educação de crianças no Brasil

(Descrição da foto: Os professores Douglas (esq.) e Eduardo formam uma minoria na educação de crianças no Brasil)

Eduardo Carmelo Conidi, 42, natural de São Paulo, e Douglas Sanches da Silva, 36, de Osasco (Grande São Paulo), fazem parte de uma minoria no Brasil: a dos homens que escolheram ser professores de crianças, trabalhando com educação infantil, universo historicamente ocupado (quase) exclusivamente por mulheres.

Segundo o Censo Escolar 2016, estudo oficial com os dados mais recentes da educação básica no Brasil, há hoje 575 mil docentes na educação infantil brasileira, sendo 554 mil mulheres e 21 mil homens. Quer dizer, para cada professor homem numa creche ou sala de pré-escola, há 26 mulheres.

A baixa participação de homens nessa faixa da educação tem raiz em grande medida na divisão sexual do trabalho, social e historicamente motivada.

“A docência dedicada à infância é uma área profissional que ilustra a segmentação decorrente dessa perspectiva de divisão sexual do trabalho, com o trabalho das mulheres associado à esfera reprodutiva e o dos homens, à esfera produtiva. A educação de crianças pequenas é associada ao âmbito do trabalho doméstico e à esfera reprodutiva, sendo, dessa forma, naturalizada como área de atuação feminina”, afirmam as pesquisadoras Mariana Kubilius Monteiro e Helena Altmann, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), no estudo “Homens na Educação Infantil: Olhares de Suspeita e Tentativas de Segregação”.

As autoras explicam que a “ideologia naturalizadora” de trabalhos exclusivos para homens e para mulheres se orienta também segundo perspectiva hierárquica, isto é, que atribui valor maior ao trabalho executado por homens. Daí uma das razões, pontuam, para o salário mais baixo pago aos professores de educação infantil em relação, por exemplo, ao pago aos professores de educação superior.

Apesar do destino comum, as origens das trajetórias de Eduardo e Douglas com a educação infantil têm características próprias.

“Você está realizando meu sonho por mim”

Douglas Sanches da Silva, hoje professor de educação fundamental 1 do Colégio Soka do Brasil, em São Paulo, sempre soube o que queria: “Quando criança, me perguntavam o que queria ser quando crescesse, eu já dizia que ia ser ‘professoro'”, relembra, ressaltando o gênero também masculino da profissão, na invenção de vocabulário infantil.

Único filho homem de sua família (ele tem também uma irmã, Deise, mais nova), Douglas precisou frustrar os planos do pai, Nelson, para se tornar professor: “Meu pai queria que eu fizesse Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial]. Ele ficou muito, muito bravo comigo à época.”

Nelson, hoje com 65 anos, estudou até o quinto ano da educação básica e queria, claro, ajudar: o filho seguiria uma carreira segura, semelhante à sua, como empregado de fábrica –ele trabalhava na multinacional ABB, gigante do setor elétrico. Com o curso do Senai do filho não seria difícil conseguir uma vaga para ele na empresa também. Tal pai, tal filho.

Com o apoio da mãe, Naíra, e apesar da contrariedade do pai, Douglas concluiu o magistério, aos 16 anos.

A grande surpresa e revelação se deu na noite da festa de formatura. Ele relembra com emoção: “Naquele momento vi meu pai como nunca tinha visto em toda a minha vida: ele estava com lágrima nos olhos. Ele olhou, me abraçou e falou: ‘Obrigado’. ‘Mas por que obrigado?’, perguntei. ‘Desculpe a posição que tive, na verdade eu queria ser professor. Você está realizando um sonho por mim.’ Ele não pôde estudar, por força de trabalho e da estrutura da família dele. Eu lutei contra tudo aquilo e aí ele criou coragem para me falar. A vontade do meu pai era ser professor de matemática”. Tal pai, tal filho.

(Descrição da foto: Douglas e a aula de geometria)

“A minha bagagem foi muito importante”

Eduardo Carmelo Conidi, professor de grupo 1 (de crianças de um ano e meio a pouco mais de dois anos) da escola Estilo de Aprender, na capital paulista, sempre gostou muito de crianças, de brincar com elas, mas só viria a se envolver mais profundamente com o universo infantil após uma perda dolorosa.

“Minha primeira mulher [Mônica] morreu em 2001, em decorrência de um tumor no intestino. E eu fiquei com os cuidados de pai e mãe [do primeiro filho, Igor]. Cuidava, dava banho, comida. Foi o contato mais expressivo que tive na minha vida”, aponta.

Da união com sua segunda mulher, Roberta, jornalista especializada em educação, nasceu o interesse formal por ser professor de educação infantil, intenção depois formalizada com o ingresso numa faculdade de pedagogia, paralelamente ao nascimento de seus dois outros filhos, Lorena e Giorgio.

Eduardo só veio a entrar numa sala de aula de educação infantil há seis anos, aos 36 anos de idade. Mas começou a trabalhar cedo, já aos 9 anos, com o pai, Francesco, alfaiate. Depois, aos 14, se tornaria operário da fábrica Lorenzetti, montando chuveiros, passando depois pelo ramo de turismo e até trabalhando como motoboy de um grande banco.

“Essas experiências foram muito importantes, porque na educação você acaba fazendo um pouco de tudo, montando uma coisa aqui, desmontando outra lá, pegando, puxando, subindo, descendo, articulando com várias coisas. Quanto maior é o seu universo de conhecimento, melhor é para oferecer boas experiências aos estudantes. A minha bagagem foi muito importante”, sublinha.

 

(Descrição da foto: Eduardo vê mágica na relação com os pequenos)

“Não me avisaram que não tinha professora”

Douglas assumiu suas primeiras turmas de educação infantil no segundo semestre de 1999: uma de maternal, de manhã, e outra à tarde com alunos que ficam período integral numa escola de Guarulhos (Grande São Paulo).

O argumento para vencer a resistência da própria escola a possíveis reações contrárias dos pais a um professor homem em sala foi este aqui: “Se ele tem o direito de fazer magistério, as meninas [professoras] também têm. Se a questão é uma troca de fraldas, como ele vai se portar com as crianças, as meninas podem ter uma conduta errada também. O diploma dele não tem nada de diferente, é o mesmo delas. Então, vamos arriscar”, cita Douglas, relembrando a discussão.

“A princípio, foi complicado com os pais dos menores. De passar uma situação de a mãe chegar à sala e falar: ‘Quero saber onde está a professora da minha filha! A minha filha jamais vai ficar com um troglodita desse tamanho! Por que não me avisaram que não tinha professora?’. Mas ela mesma me agradeceu no fim do ano e disse que traria o outro filho mais novo para ser cuidado por mim.”

 

Douglas assume que “o perfil masculino assusta”, porque ainda é incomum a posição do homem no cuidado dos pequenos, mas diz ter aprendido uma lição nos 20 anos que soma de profissão.

“Você precisa ter uma estrutura muito grande para aguentar toda essa negatividade e essa dúvida e dar a oportunidade de os pais te conhecerem. Quando você tem esse relacionamento transparente e mostra que consegue avaliar o desenvolvimento de uma criança, eles se abrem de maneira encantadora. O que me deu força para seguir é essa garra de empreitar para transformar essa situação. Alguns desistiram, eu não ia desistir.”

Ricardo Matsukawa/UOL

“Se o amigo não sabe, o amigo tem o direito de perguntar para aprender”, diz Douglas

Eduardo avalia a presença mínima de homens na educação infantil como decorrente do “papel higienista” conferido historicamente à escola, como espaço onde a criança vai ser alimentada e limpa por mulheres, que fazem as vezes das mães, que ainda resiste no presente.

“Aqui [na escola Estilo de Aprender, onde há outros homens trabalhando como professores, numa proporção de quase equivalência com as mulheres] é como se a gente fosse uma ilha. Há ainda muitas escolas higienistas, aquilo tudo limpinho, as mulheres todas de uniforme, as crianças todas de uniforme branquinho, limpinho. O universo masculino é só para arrumar a porta, pintar uma parede, trocar uma luz, quando ainda não tem ninguém na escola. Isso é ainda bem separado hoje.”

Para Eduardo, ser professor é uma brincadeira alegre

“A escola não é um depósito de crianças”

Douglas e Eduardo escolheram serem professores dos pequenos porque veem espaço privilegiado para a criação e a emoção.

“Entendi que a educação infantil não era só assistencialista, não era só trocar uma fralda, cuidar bem de uma criança. Tinha potencial ali dentro, porque eu poderia criar com aquelas crianças”, frisa Douglas.

 

“A educação infantil é única. O momento em que estou com elas ali não vai voltar mais. Se eu pegar uma turma de primeiro ano, é o único primeiro ano da vida daquelas crianças. Então tem que ser o primeiro ano que marque a vida delas. Você precisa saber o que vai fazer, a escola não é um depósito de crianças.”

 

“Quanto menores as crianças, mais legais, porque são muito verdadeiras. Essas relações acontecem como mágica. Todo dia é uma coisa diferente, pode ser até a mesma coisa, mas diferente”, descreve Eduardo.

 

“O olhar que elas têm sobre o mundo ainda é de maravilhamento, de descoberta, de experimentar gostos, pegar coisas. São sensações e emoções bem profundas, que marcam muito a criança. E quanto mais tranquilas são essas experiências, mais calmas essas crianças se tornam. Ficam mais seguras de estar ali com você, um adulto.”

(Descrição da foto: Trabalhos de alunos em paredes da escola Estilo de Aprender)

“A mudança que se quer começa com o pequenininho”

O fato de ter um professor homem em sala pode se converter em ganhos para todos, conforme a experiência dos próprios professores, em nome até da diversidade.

“Eu empodero primeiro meus alunos, dou responsabilidade. E eles ficam mais autônomos, têm menos medo de errar, se tornam mais críticos e abertos. Começam a entender a diferença de habilidade dos gêneros, mas não mais o ‘isso é de homem e isso é de mulher’. Diminui o conflito entre eles. Eles já veem em você algo ousado, porque seu papel e modo de agir já são diferentes”, qualifica.

(Descrição da foto: A presença masculina pode trazer ganhos para os alunos)

“A vibração que a gente tem, as brincadeiras corporais, aquilo de brincar de lutinha, medir força, aqui a gente pode propor também essas brincadeiras de forma leve, respeitar o corpo do outro, brincar junto, dar a mão, fazer uma roda, pular junto, pegar na mão para pular junto, descer o escorregador de trenzinho com todo mundo junto. Acho que essa é uma energia masculina. Claro que as mulheres têm também essa energia, mas acho que nos homens isso é mais forte, de força, levantar, pôr na árvore”, identifica Eduardo.

 

(Descrição da foto: Sala de aula da escola Estilo de Aprender)

Ao lado da desinformação, Eduardo cita também o comodismo do lado masculino na questão de haver poucos homens no infantil: “Uma coisa é ter isso [de profissão de mulher] como verdade socialmente falando, outra é você se arriscar, dizer: ‘Quero experimentar'”.

Assume que a profissão exige certo tipo de perfil, uma vez que as crianças choram, fazem barulho, querem atenção, mas diz não ver lugar melhor para quem quer contribuir com um mundo melhor: “Quando você tem a experimentação de estar numa sala de aula, se aproxima dessas pequenas pinceladas que pode dar no mundo, suas contribuições, as transformações que podem acontecer em muitas vidas que passam por você, então você acaba sendo picado pelo bichinho da educação. E não quer mais sair. Eu não quero”. Daí o seu convite: “Tem que experimentar e refletir sobre que mundo a gente pode construir a partir da educação infantil e da educação em geral. A mudança que se quer começa com o pequenininho”.

No colégio Soka se encerra mais um dia de aula. “Quem está com a mesa organizada, com o material dentro do estojo, pode des…” E os alunos completam a fala do “prô” Douglas, em coro: “… CER!”. “Quer me ver infeliz é me deixar fora de sala de aula. Já tentei, não consegui”, avisa, depois de passar a lição de casa de matemá… TICA!

 

ORIGINAL: https://educacao.uol.com.br/noticias/2017/09/02/educacao-infantil-e-lugar-de-homem-eles-mostram-que-sim.htm

 

 

8 JEITOS DE PROMOVER O EMPODERAMENTO FEMININO DESDE A ALFABETIZAÇÃO

POR MARA MANSANI
BLOG DA ALFABETIZAÇÃO, NOVA ESCOLA.

 

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Leitura são bons momentos para incentivar a tolerância.

 

Acho que nunca ouvimos falar de tantos casos de violência e discriminação contra as mulheres como nos dias atuais. É preciso dar um basta nessa vergonha! E todos nós, educadores, temos que abrir o diálogo e, principalmente, desenvolver boas práticas em nossas escolas que garantam a equidade e empoderem nossas meninas. Paulo Freire sabiamente dizia que “a Educação liberta”.

Foi em minha casa, no seio de minha família, que aprendi que todos precisam e merecem ser respeitados, mas foi na escola que isso se fortaleceu em mim. Justamente nela, em que muitas vezes se disseminam ideias como “meninas não são para a área de exatas”, “meninas são fofoqueiras”, “meninas são frágeis e os meninos, fortes” etc. Esse tipo de discriminação se apresenta em coisas aparentemente sem importância, como as cores de capas de cadernos ou de uniformes, em grupos de estudo onde os garotos não se misturam com as garotas.

Como alfabetizadora, me esforço constantemente para combater esse tipo de segregação. E todos os anos, durante a semana do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, promovo diversas atividades que valorizam a participação da mulher na sociedade. O intuito é levar as crianças a refletirem, desde pequenas, sobre comportamentos e atitudes em relação ao problema.

Vou contar a vocês um pouco dessas práticas que venho desenvolvendo ao longo desses anos e que podem servir de inspiração:

  1. Explore biografias de mulheres que fizeram a diferença

A cada ano, pesquiso e amplio a minha lista de mulheres maravilhosas, que inclui nomes como Carolina Maria de Jesus, Zilda Arns, Chiquinha Gonzaga, Irmã Dulce, Maria da Penha, Malala, Luiza Mahin e muitas outras, sem contar as que fazem parte da comunidade escolar. É sempre emocionante descobrir com os alunos que essas mulheres inspiradoras fazem parte da nossa vida, mas muitas vezes suas histórias são ignoradas. Com biografias, que são textos informativos, pode-se explorar a leitura e interpretação de texto, a escrita de listas de nomes ou produções no formato “Você sabia?”.

Certa vez, uma turma de alunos do 2º ano produziu um pequeno vídeo com a história de dona Ifigênia, matriarca e líder quilombola do Cafundó, aqui em Salto de Pirapora, no interior de São Paulo. Depois de editado, ficou mais ou menos como um programa de TV, que editamos facilmente no computador (na internet, há muitos programas gratuitos para isso).

  1. Faça um painel de imagens sobre mulheres

O tema desse painel temático também pode girar em torno dessas grandes figuras, mas também de profissões que eram tidas como masculinas e que as mulheres vêm exercendo, entre outros enfoques possíveis. Pode-se escolher figuras e produzir legendas em duplas, primeiro com o uso de letras móveis e depois, com as intervenções do docente, no papel. O painel pode ser exposto para toda a escola.

  1. Organize rodas de conversa sobre o tema

Faça uma lista com questionamentos que possam abrir um debate:  quais são as brincadeiras consideradas de meninas e de meninos? Menino chora? Em casa, quais são as tarefas das mulheres? Facilite a conversa exercendo o papel de mediadora e procure estimular a participação de todos. Além disso, prepare-se antes para intervir. Se possível, traga informações e dados sobre os assuntos debatidos.

Fiz muitas vezes essas rodas temáticas com crianças, mas também com os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), explorando o papel da mulher e do homem nas famílias e a Lei Maria da Penha. Posso dizer que as rodas de conversa pegavam fogo!

  1. Escolha livros que discutam o papel da mulher

Muitas obras que exploram esse tema podem ser trazidas para a sala de aula. Sugiro algumas que já utilizei:

  • Malala – A menina mais corajosa do Mundo, de Viviana Mazza
  • O diário de Anne Frank, de Anne Frank
  • Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado
  • O cabelo de Lelê, de Valéria Belém
  • Ceci tem pipi?, de Thierry Lenain
  • O diário de Zlata – A vida de uma menina na guerra, de Zlata Filipovic
  • Tudo bem ser diferente, de Todd Parr
  • Frida Kahlo para meninas e meninos, de Nadia Fink
  1. Leve músicas de cantoras brasileiras

Exploro sempre a obra de nossas grandes cantoras e compositoras, que são a prova viva da capacidade artística das mulheres. Chiquinha Gonzaga, Nara Leão, Adriana Calcanhoto e outras artistas levam a turma a cantar e dançar!

  1. Proponha a escrita de cartas

Vale propor que a turma escreva cartas para as mulheres que são importantes em suas vidas ou que queiram homenagear. Essa é mais uma maneira de envolver, em uma atividade de produção de texto, uma atitude de valorização das mulheres. É sempre muito emocionante, para mim, ver o que as crianças escrevem para mães, avós, tias e tantas outras.

  1. Elabore atividades de entrevista

É outra maneira interessante de abordar o assunto. Peça que os alunos realizem entrevistas com as mulheres que se destacam na comunidade escolar. Na alfabetização, sou a escriba que, junto com os alunos, redige as perguntas a serem feitas à entrevistada – sempre escolhida pela turma. A entrevista pode ser gravada.  Eles adoram, se sentem verdadeiros jornalistas e aprendem muito com a experiência de vida dessas mulheres! Com os alunos de um 1º ano, certa vez, entrevistamos a merendeira da escola e foi um sucesso.

  1. Leve filmes

Alguns longas-metragens, inclusive de animação, além de divertidos, rendem boas discussões sobre o protagonismo das mulheres. Entre os vários títulos que exibo aos meus alunos pequenos, sugiro os seguintes:

  • Matilda, (Danny DeVito, 1h42)
  • A menina e o porquinho
  • Mulan (Tony Bancroft e Barry Cook, 1h28)
  • A viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki, 2h05)

A última sugestão que deixo para vocês é que conheçam um projeto muito especial, o Mulheres Inspiradoras, coordenado pela professora Gina Vieira Ponte de Albuquerque. Desenvolvido em uma escola pública de Ceilândia, conquistou diversos prêmios, entre eles o Prêmio Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos “Óscar Arnulfo Romero”, promovido pela Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI), e foi um dos destaques da reportagem de capa de NOVA ESCOLA de setembro de 2016. Essa maravilhosa professora transformou sua prática pedagógica em uma ferramenta potente de transformação da vida de suas alunas e alunos. Uma iniciativa realmente inspiradora!

E vocês, queridos professores, contem aqui nos comentários como vêm sendo tratada a questão das mulheres e da equidade em suas escolas!

Ah, e antes de encerrar, quero dar os parabéns a todos educadores que promovem a equidade em suas escolas e deixar um beijo especial a minha mãe Rayld, por sempre me ensinar a lutar pelos meus direitos e pelos direitos de todos!

Um abraço,

Mara Mansani

CAMPUS EAD – Abertas inscrições para cursos do Mediotec pelo IFRN

Abertas inscrições para cursos do Mediotec pelo IFRN

 

As vagas são para alunos da rede pública, nos polos Canguaretama, Ceará-Mirim, São Paulo do Potengi e São Gonçalo

As inscrições para o Mediotec pelo IFRN podem ser feitas até a próxima quarta-feira (21). O programa é voltado para alunos que querem começar um curso técnico da rede e-Tec Brasil/MedioTec no Campus de Educação a Distância do IFRN. O Campus EaD está ofertando 200 vagas. São 50 para cada polo: Canguaretama, Ceará-Mirim, São Paulo do Potengi e São Gonçalo do Amarante.

O processo seletivo é voltado para alunos da rede pública estadual, matriculados no Ensino Médio Regular ou na modalidade de Educacão de Jovens e Adultos (EJA), com idade de 15 a 19 anos. O edital reserva 10% das vagas para jovens com deficiência ou em situação de vulnerabilidade social e 65%, para alunos do Ensino Médio pertencentes a famílias beneficiárias do programa Bolsa Família.

As inscrições podem ser feitas até o dia 21 de junho exclusivamente pelo Sistema Integrado de Gestão da Educação (Sigeduc), acessando o Portal do Estudante e seguindo o caminho “Programas” → “Pronatec/Mediotec → “Inscrever Estudante em Oferta de Curso do PRONATEC/MEDIOTEC”.

Os cursos serão ministrados na forma EaD, contando com apoio presencial no polo do curso, onde também serão ministradas as aulas da carga horária presencial. A UFRN e o IFRN serão as instituições responsáveis pelos cursos, pelo material didático on-line, assistência estudantil e suporte pedagógico.

O curso técnico do IFRN – EAD

O Curso Técnico concomitante em Informática para Internet, na modalidade a distância, tem como objetivo geral capacitar profissionais no desenvolvimento de programas de computador para Internet e a desempenhar atividades voltadas para design de websites, análise e desenvolvimento de sistemas para Internet, projeto de banco de dados, instalação e configuração de servidores de Internet.

 

Fonte: IFRN

O JEITO CERTO DE DISCIPLINAR

Nem rigidez nem permissividade. Segundo especialista, a solução é o equilíbrio.

POR NOVA ESCOLA

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Foto: Mariana Pekin

A Nova Escola ouviu a Fernanda Lee que é Mestre em Psicologia Escolar pela Universidade Nazarena de Point Loma, nos Estados Unidos, além disso, ministra cursos sobre disciplina positiva para pais e professores no Brasil e nos EUA.

Nesse bate-papo ela fala sobre a disciplina em sala de aula. Veja:

Um mundo sem punições é um mundo em que as ações não têm consequências?

FERNANDA Existe uma diferença entre punição e consequência lógica. E elas são sempre confundidas. Quando um estudante risca a mesa, é comum deixá-lo sem recreio. O que isso tem a ver com o que ele fez? Nada. Trata-se apenas de uma punição. A consequência lógica deve atender a três princípios: ser relacionada (seria justo que ele limpasse a própria mesa), razoável (limpar a mesa de todos os colegas não faria sentido) e, se possível, antecipada (o aluno pensa no que fazer para resistir à vontade de riscar a mesa).

O que molda essa mentalidade?

É o conceito de disciplina positiva, criado pela pesquisadora e psicóloga americana Jane Nelsen. Normalmente, disciplinamos as crianças de maneira rígida ou permissiva. Quando os professores são muito rígidos, acabam sendo autoritários e o aluno sente que teve sua dignidade roubada. Quando são permissivos, deixam que tudo aconteça para não afetar a autoestima da turma. Nelsen propõe que o docente seja firme, mas também gentil para manter a dignidade da criança.

Por que agir assim, se no passado a rigidez parecia funcionar?

A mudança de gerações transformou as relações de poder tanto entre adultos (no trabalho e na família) como entre adultos, crianças e jovens. A garotada hoje quer direito a igualdade, quer ser ouvida. O professor tende a acreditar que, no momento que ele deixa o aluno decidir, está perdendo poder. Isso é um equívoco. O adulto ainda é o capitão do barco, mas, ao se mostrar disposto a ouvir e considerar também os estudantes, deixa que todos ajudem a remar.

E se o aluno não estiver disposto a cooperar?

As crianças observam os adultos a todo o momento e, às vezes, os desafiam. Se o docente usa uma bronca para exigir bom comportamento, o aluno pode recuar por se sentir acuado e com medo. A alternativa é validar o sentimento da criança. O professor diz: “Eu entendo que você quer brincar, mas sua turma quer estudar agora. O que podemos fazer para todo mundo se sentir bem?”. Com isso, o aluno pensa: “Poxa, ele me viu. Me escutou”. Tudo o que a criança sente é válido, ainda que nem tudo o que ela faça seja.

Como agir quando as famílias são permissivas ou rígidas demais?

A escola não deve ser dependente da família para adotar as práticas da disciplina positiva. As crianças são capazes de perceber a diferença entre o ambiente familiar e o escolar. Um exemplo interessante são crianças que têm dois pares de avós e na casa de um é liberado comer doce, mas na do outro não. Elas não confundem as regras, sabem como agir em ambos ambientes. Ainda assim, é essencial informar as famílias sobre a postura adotada. Vale fazer uma reunião, explicar a proposta e se dispor a dar mais detalhes.

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O QUE É TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO COM OU SEM HIPERATIVIDADE (TDAH)?

Antes de sugerir que um aluno tem hiperatividade, veja se é sua aula que não anda prendendo a atenção. Cinco pontos essenciais sobre esse transtorno.

POR BIANCA BIBIANO
DE NOVA ESCOLA

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À primeira vista, a estatística soa alarmante: de 3 a 6% das crianças em idade escolar sofrem com o Transtorno de Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade (o nome oficial do TDAH), que muita gente conhece somente como hiperatividade. Quer dizer então que, numa classe de 30 alunos, sempre haverá um ou dois que precisam de remédio? Não. Na maioria das vezes, o acompanhamento psicológico é suficiente. E, se o problema for bagunça ou desatenção, vale analisar se a causa não está na forma como você organiza a aula. “Geralmente, a inquietação costuma estar mais relacionada com a dinâmica da escola do que com o transtorno”, diz Ma­u­ro Muszkat, especialista em Neuropsicologia Infantil da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Quando o caso é mesmo de TDAH, são três os sintomas principais: agitação, dificuldade de atenção e impulsividade – que devem estar presentes em pelo menos dois ambientes que a crian­ça frequenta. Por tudo isso, nun­­ca é demais lembrar que o diagnóstico precisa de respaldo médico. Veja cinco pontos essenciais sobre o transtorno.

1. Agitação não é hiperatividade

Há dias em que alguns alunos parecem estar a mil por hora e nada prende a atenção deles. Isso não significa que sejam hiperativos. O problema pode ter raízes na própria aula – atividades que exijam concentração muito superior à da faixa etária, propostas abaixo (ou muito acima) do nível cognitivo da turma e ambientes desorganizados e que favoreçam a dispersão, por exemplo. Em outras ocasiões, as causas são emocionais. “Questões como a morte de um familiar e a separação dos pais podem prejudicar a produção escolar”, diz José Salomão Schwartzman, neurologista especialista em Distúrbios do Desenvolvimento da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Nesses casos, os sintomas geralmente são transitórios. Quando ocorre o TDAH, eles se mantêm e são tão exacerbados que prejudicam a relação com os colegas. Muitas vezes, o aluno fica isolado e, mesmo hiperativo, não conversa.

2. Só o médico dá o diagnóstico

Um levantamento realizado recentemente pela Unifesp aponta que 36% dos encaminhamentos por TDAH recebidos no setor de atendimento neuropsicológico infantil da instituição são originados da escola por meio de cartas solicitando aos pais que procurem tratamento para o filho. “Em muitos casos, o transtorno não se confirma”, afirma Muszkat. A investigação para o diagnóstico costuma ser bem detalhada. Hábitos, traços pessoais e histórico médico são esquadrinhados para excluir a possibilidade de outros problemas e verificar se os aspectos que marcam o transtorno estão mesmo presentes. Como ocorre com a maioria dos problemas psicológicos (depressão, ansiedade e síndrome do pânico, por exemplo), não há exames físicos que o problema. Por isso, o TDAH é definido por uma lista de sintomas. Ao todo são 21 – nove referentes à desatenção, outros nove à hiperatividade e mais outros três à impulsividade.

3. Nem todos precisam de remédio

Entre os anos de 2004 e 2008, a venda de medicamentos indicados para o tratamento cresceu 80%, chegando a cerca de 1,2 milhão de receitas, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Diversos especialistas criticam essa elevação, apontando-a como um dos sinais da chamada “medicalização da Educação” – a ideia de tratar com remédios todo tipo de problema de sala de aula. “Muitas vezes, o transtorno não é tão prejudicial e iniciativas como alterações na rotina da própria escola, para acolher melhor o comportamento do aluno, podem trazer resultados satisfatórios”, explica Schwartz­wman. Quando a medicação é necessária, os estimulantes à base de metilfenidato são os mais prescritos pelos médicos. Ao elevar o nível de alerta do sistema nervoso central, ele auxilia na concentração e no controle da impulsividade. O medicamento não cura, mas ajuda a controlar os sintomas – o que se espera é que, juntamente com o acompanhamento psicológico, as dificuldades se reduzam e deixem de atrapalhar a qualidade de vida. Vale lembrar que o remédio é vendido somente com receita e, como outros medicamentos, pode causar efeitos colaterais. Cabe ao médico avaliá-los.

4. O diálogo com a família é essencial

Em alguns casos, os professores conseguem participar das reuniões com os pais e o médico. Quando isso não é possível, conversas com a família e relatórios periódicos enviados para o profissional da saúde são indicados para facilitar a comunicação. É importante lembrar ainda que não é por causa do transtorno que professores e pais devem pegar leve com a criança e deixar de estabelecer limites – a maioria das dificuldades gira em torno da competência cognitiva, da falta de organização e da apreensão de informações, e não da relação com a obediência. Durante os momentos de maior tensão, quando o estudante está hiperativo, manter o tom de voz num nível normal e tentar estabelecer um diálogo é a melhor alternativa. “Se o adulto grita com a criança, ambos acabam se exaltando rápido e, em vez de compreender as regras, ela pode pensar que está sendo rejeitada ou mal compreendida”, diz Muszkat.

5. O professor pode ajudar (e muito)

Adaptar algumas tarefas ajuda a amenizar os efeitos mais prejudiciais do transtorno. Evitar salas com muitos estímulos é a primeira providência. Deixar alunos com TDAH próximos a janelas pode prejudicá-los, uma vez que o movimento da rua ou do pátio é um fator de distração. Outra dica é o trabalho em pequenos grupos, que favorece a concentração. Já a energia típica dessa condição pode ser canalizada para funções práticas na sala, como distribuir e organizar o material das atividades. Também é importante reconhecer os momentos de exaustão considerando a duração das tarefas. Propor intervalos em leituras longas ou sugerir uma pausa para tomar água após uma sequência de exercícios, por exemplo, é um caminho para o aluno retomar o trabalho quando estiver mais focado. De resto, vale sempre avaliar se as atividades propostas são desafiadoras e se a rotina não está repetitiva. Esta, aliás, é uma reflexão importante para motivar não apenas os estudantes com TDAH, mas toda a turma.

Quer saber mais?

CONTATO
Mauro Muszkat

BIBLIOGRAFIA
No Mundo da Lua
, Paulo Mattos, 182 págs., Ed. Leitura Médica, tel. (11) 3266-5739, 34 reais
Transtorno de Déficit de Atenção, José Salomão Schwartzman, 127 págs., Ed. Memnon, tel. (11) 5575-8444, 36 reais

INTERNET 
Palestras online para educadores sobre o TDAH.

UMA INCLUSÃO SÓ NO PAPEL

Preconceito e falta de estrutura excluem crianças com deficiência.

POR ELISA MEIRELES, NOVA ESCOLA E BRUNA NICOLIELO

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“Desculpe, mas a escola tem muitas escadas e não comporta uma cadeirante como a Soraia*.” “Só temos uma auxiliar e não há profissionais para atender a Maíra*”. “O Dênis* tem apenas 5 anos, eu sei, mas, antes de matriculá-lo, acho melhor fazer um teste, ver se ele consegue acompanhar a classe.” “Não sabia que a Luana* tinha síndrome de Down. Prefiro que ela saia da escola, não queremos ela aqui.” “Recebemos a inscrição da Roberta*, mas não há vagas na EMEF perto da casa de vocês, ela precisa esperar.” Essas foram algumas das respostas ouvidas por mães de crianças com deficiência ao tentar garantir o direito de seus filhos de estudar.

“Desde 1989, negar o acesso escolar a essas crianças é proibido”, explica Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, coordenadora do Grupo de Trabalho de Inclusão de Pessoas com Deficiência do Ministério Público Federal (MPF). Como aparece no artigo 8º da Lei nº 7.853, “constitui crime punível com reclusão de um a quatro anos e multa (…) recusar, suspender, procrastinar, cancelar ou fazer cessar, sem justa causa, a inscrição de aluno em estabelecimento de ensino público ou privado por motivos derivados de deficiência”.

Os problemas, no entanto, nem sempre chegam ao conhecimento do Poder Público e, quando chegam, não são tratados com a devida atenção. “Se a família está em busca de escola e recebe uma resposta negativa, continua procurando opções. Denunciar não é prioridade naquele momento”, conta a deputada federal Mara Gabrilli (PSDB), que acompanha o tema de perto.

Como as negativas não são dadas por escrito, fica difícil provar. A mãe de Dênis* , por exemplo, conta que procurou uma escola particular em Santo André, região metropolitana de São Paulo. Quando a diretora viu o filho, que tem uma paralisia cerebral leve, exigiu um teste escrito e depois recusou a matrícula. “Não havia testemunhas e não tenho provas, fica a minha palavra contra a da instituição de ensino”, conta. O mesmo ocorreu com Luana*, de Salvador, que tem síndrome de Down e estudou por apenas três meses. A mãe se desentendia com a escola por achar que a menina era tratada de forma negligente e não aprendia. Um dia, ela ficou presa em uma sala e precisaram arrombar a porta. O episódio gerou mais brigas. “A diretora chegou a dizer que não sabia que minha filha tinha síndrome de Down. Depois a convidou a se retirar da escola”, diz a mãe. Não foi feita uma denúncia e a garota está sem estudar.

Recusas e cancelamentos de matrícula, embora também aconteçam na rede pública, são mais frequentes na particular. “Como o processo de inclusão vem ocorrendo com mais intensidade nas públicas e existe um maior controle por parte do governo, elas tiveram de se abrir a esse aluno e hoje têm uma expertise maior no assunto”, acredita Maria Eugênia Pesaro, psicóloga do Lugar de Vida – Centro de Educação Terapêutica, e doutora em Psicologia Escolar do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). É uma vantagem importante, mas não significa que os problemas estão sanados.

*Para preservar a identidade dos entrevistados, os nomes são fictícios.


Veja o depoimento da especialista em Educação Maria de Salete Silva:

Desafios estruturais e de formação

A falta de profissionais que a acompanhem em classe tira de Maíra* o direito de ir à escola. Foto: Arqvuivo pessoal/Maíra*

As leis de inclusão e obrigatoriedade da matrícula não vieram acompanhadas de formação adequada aos educadores nem de condições de trabalho. “Ninguém se adapta da noite para o dia. As escolas buscam alternativas, mas dá para entender a angústia de lidar com o desconhecido”, diz Sulamita Meninel, mãe de um jovem com paralisia cerebral e formadora da Secretaria Municipal de Santos, a 77 quilômetros de São Paulo.

A preocupação de muitos docentes é como organizar a prática de modo a incluir o aluno com deficiência e dar a ele condições de aprender. Não basta apenas colocá-lo na classe, tem de haver uma rede de apoio ao professor – composta de coordenação pedagógica e profissional de atendimento educacional especializado (AEE) – capaz de orientá-lo sobre as especificidades de cada estudante e sobre como incluí-lo.

Do lado das famílias, há ainda um receio sobre como o filho será tratado. “Quando a criança vai ingressar na escola regular, existe uma preocupação dos pais com o espaço arquitetônico, se há banheiro no andar em que ela estará, se há escada. Eles querem professores preparados e se preocupam que haja cuidadores responsáveis pela alimentação e pela higienização do aluno”, comenta Elaine Dal’bo Lemos, diretora do setor escolar da Escola de Educação Especial AACD Lar Escola.

O problema é que esses recursos ainda estão em construção no país. Segundo o Censo Escolar 2011, apenas 10% das escolas de Ensino Fundamental têm sala de AEE, sendo que só em 9% há profissionais alocados para esses espaços. Falta também infraestrutura mínima. Apenas 19% têm sanitários adequados e 17% contam com dependências e vias adaptadas. A família de Soraia* foi a 16 escolas de Osasco, região metropolitana de São Paulo, e todas alegaram problemas arquitetônicos. Para os pais de Maíra*, de São Paulo, a resposta foi que poderiam colocar a turma dela no térreo, mas não havia profissionais para acompanhá-la. Os pais se dispuseram a encontrar uma pessoa por conta própria, mas a escola não aceitou. No caso de Roberta*, o problema foi falta de vagas. A escola em que a menina estudava parou de atender crianças com deficiência em 2011 e, desde então, ela aguarda na fila para se matricular em uma EMEF próxima de sua casa.

Segundo Marcia Rabelo, promotora da Infância de Salvador, todas as denúncias que chegam a ela sobre evasão são relacionadas a problemas no processo de inclusão. “As escolas recebem recursos para oferecer AEE, mas alegam falta de condições para atender os estudantes. Se uma unidade não tem esses recursos, temos de investigar se há crime de improbidade e responsabilizar os culpados por mau uso do dinheiro público”, diz ela.

Uma rede de problemas e soluções

Às dificuldades da Educação, somam-se entraves relativos a outras áreas. Em muitos locais, falta transporte adequado e os alunos são levados em ônibus comuns. “Muitos não conseguem subir no transporte e há quem nem chegue ao ponto porque as calçadas não ajudam”, comenta Eugênia Gonzaga. A dificuldade aumenta conforme a criança cresce. “Enquanto a mãe consegue carregar, ela vai. Depois, não dá mais.” Questões específicas da área de Saúde também exigem atenção. “A falta de próteses e de um acompanhamento clínico, por exemplo, dificulta a frequência à escola”, explica Martinha Clarete Dutra dos Santos, diretora de Políticas de Educação Especial do Ministério da Educação (MEC).

Para articular Educação, Saúde e Assistência Social, foi criado um programa que cruza dados do Censo Escolar com o cadastro de pessoas de até 18 anos que recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC) – concedido a quem tem alguma deficiência e é de famílias de baixa renda. A iniciativa, chamada de BPC Escola, visa identificar quem não estuda e resolver o problema. “No começo do programa, em 2008, 70% estavam fora. Hoje, são 30% (140.274)”, conta Martinha.

É fundamental, portanto, entender a complexidade do tema e ter um olhar atento a ele. “Precisamos nos conscientizar dos benefícios amplos da Educação inclusiva, tendo em vista que o ambiente humano heterogêneo é mais interessante e mais rico para o processo de aprendizagem de todos os estudantes”, defende Rodrigo Mendes, presidente do Instituto Rodrigo Mendes.

Garantir o direito de toda criança e adolescente à Educação vai além da ideia de formar gente capacitada para o mercado de trabalho ou para o desenvolvimento do país. “A escola é muito mais do que o campo do conhecimento e da aprendizagem, é um lugar de reconhecimento e de pertencimento da infância. Mesmo uma criança com deficiência severa, em que não se vê resposta, tem o direito a esse espaço de ser criança”, explica Maria Eugênia. Promover a inclusão é formar uma geração de cidadãos capazes de olhar a pessoa com deficiência de outra maneira, sem medo do dito “diferente”. Essa mudança é fundamental.

*Para preservar a identidade dos entrevistados, os nomes são fictícios.