LETÍCIA E RAFAEL

POR FÁBIO CHAP

image29

Letícia é racista. Dia desses um homem negro chegou nela na pista da balada. Rafael perguntou se ela estava acompanhada.

Letícia não respondeu nada. Só fez cara de desprezo. Rafael não pediu beijo, não invadiu o espaço dela.

– Não rela em mim, cara.

– Mas não encostei em você, moça. Só tô querendo saber seu nome mesmo.

– Sai daqui, macaco, antes que eu faça uma gritaria.

– Como é que é? Do que você me chamou?

– Olha, tô sem banana na bolsa. Já disse pra você sumir daqui ou eu faço um escândalo.

Rafael não suportou o papel de humilhado. Olhou pro lado, ninguém olhava.

– Vadia! É isso que você é. Uma branquela puta que vem aqui só pra chupar Playboy no camarote.

Letícia se chocou. Note o ciclo que se forma. Note a norma da agressão como funciona. A roda começou no racismo e pouco a pouco ambos estavam num abismo de misoginia.

Rafael deu um puta soco no estômago de Letícia que caiu ajoelhada na pista. As amigas correram na direção dela pra ver o que tinha acontecido. Ver o perigo que ela corria. Rafael sabia que seria punido, optou em correr pra pagar a conta e sumir daquela balada.

Letícia, ainda ajoelhada, apontava pra Rafael e dizia:

– Pega esse filho da puta. Ele me bateu. Pegaaaa esse preto desgraçado, pelo amor de Deus!

As pessoas ao redor estavam chocadas. Um soco no estômago literal e outro figurado. O racismo foi que começou o ciclo e esse seguiu descontrolado rumo à violência contra uma mulher.

No meio da pista as pessoas começaram a fazer vídeos da mulher agredida e ajoelhada proferindo xingamentos racistas, gritando: ‘Filma mesmoo, macacada!’

Dias depois caíram os vídeos na internet; que foram parar na TV. Rafael foi preso uma lanchonete enquanto assistia sua agressão no Datena. A garçonete não teve pena e chamou logo a polícia. Os outros clientes seguraram Rafael, que tentou fugir. Em vão.

Letícia levantou do chão. Havia semanas que aconteceu tudo isso. Mas Letícia, mais que nunca, estava à beira do precipício. Uma amiga indignada disse que a história inteira tava errada. Não só a violência de Rafael, mas também a violência de Letícia que chamou um homem de macaco e o ofereceu banana na pista.

Letícia foi trucidada na internet. Caíram vídeos dela fazendo piadas racistas em festas da faculdade. Se liga só no papo da garota:

– Sabe, o saquinho de supermercado? É branco! O de lixo? É preto!

E se tem uma verdade, uma moral nessa história toda é que vez ou outra a vida é clara em nos mostrar como funciona o ciclo de ódio. Mais desenhado que isso, impossível. Mais perturbador que isso, difícil.

Rafael pegou 4 anos de prisão. Letícia 6 meses e 15 dias. A internet entrou numa catarse comemorando a decisão. Bradavam que, às vezes, a justiça funciona, mas só quando vem à tona a história completa.

Uma coisa é certa: Rafael e Letícia são exemplos da torta visão de que devolver ódio com ódio dá em mais ódio. Essa é a pior equação.

Sabe os racistas? Sabe os agressores? Já é século 21 e eles não passarão.

**

Anúncios