PATRÍCIA E PEDRO

POR FÁBIO CHAP

Patrícia ‘caiu na internet’. Foi flagrada fod**** gostoso; fazendo boq***e em dois amigos da faculdade. Patrícia sentava e gemia com vontade. Sentia que tinha liberdade pra experimentar um prazer.

A notícia logo se espalhou na pequena cidade onde Patrícia morava e — fatalmente — chegou ao pai; advogado respeitado. Osvaldo, ao ver algumas das fotos, ficou surtado. Segundo ele, ‘a filha que tinha criado com tanto amor e carinho agora era uma puta, uma vadia, uma vagabunda como a tia’.

Pra julgar, Osvaldo se esqueceu o quanto já comeu prostitutas nessa vida. Frequentador assíduo do ‘La Birita’, um puteiro de luxo visitado por fazendeiros, agricultores e senhores de alta renda da sociedade interiorana.

Ana, a mãe de Patrícia entrou em desespero. Chorava o dia inteiro e, por mais que quisesse dar uma palavra de consolação, não conseguia encontrar perdão pro fato de a filha ter se exposto tanto assim.

– Quando você e seu irmão saíram de mim, não imaginei que um me daria tanto orgulho e a outra me causaria tanta dor. Peço ao senhor que me dê forças pra te perdoar, mas por enquanto prefiro que não tenha atrito. Não fale mais comigo.

 Patrícia tentava argumentar dizendo que o irmão não era ‘exatamente o orgulho da nação’:

– E a doença que ele pegou? E a namorada que ele espancou? Agora, eu, por ter transado com amigos sou aquela que te causa dor?

– É. — Esbravejou a mãe; não dando espaço pra retórica.

O irmão, que já teve HPV por não se proteger devidamente, de repente, não mais a olhava na cara. Ele dizia:

– Já que você quer vara de um monte de cara, que faça isso bem longe de mim, sua filha da puta. Vagabunda! Tenho nojo de ter uma irmã imunda igual você.

Patrícia teve que mudar de faculdade, mas nada adiantou, na verdade. Amigas a abandonaram, amigos a esculacharam. Suas redes sociais estavam repletas de xingamentos de pessoas que não a conheciam e, nem por um momento, se colocaram no lugar dela. Ao ser entrevistada pra um estágio, ouviu da entrevistadora que ali não tinha teste do sofá. Que ali era lugar de trabalhar e que infelizmente, aquele escritório não a poderia ajudar.

Patrícia, ferida na alma, começou a desmoronar. As fotos estavam em todo lugar: WhatsApp, Inbox, Google Chrome, Firefox. Seu vídeo pedindo porra na cara teve 3 milhões de views. A revista ‘CristoNews’ dedicou uma seção inteira pra entrevistar a família que estava à beira de um colapso.

Osvaldo foi o primeiro a se manifestar pra jornalista. Disse que a filha mereceu o que aconteceu. Que estava pagando por um erro que ela própria cometeu.

– Se deixar ser filmada? — Indagou a jornalista.

– Sair com dois desgraçados, tendo se esquecido que homem algum aceita ser marido de mulher promíscua. Na verdade, os moleques que filmaram são homens, né? Não têm culpa que existam verdadeiras meretrizes que topem esse tipo de indecência. Se ela ainda cobrasse, mas não, fez isso por perversão mesmo.

– Como está o psicológico dela?

– Ela se recupera. Disse a mãe.

Mas não foi bem assim. Após a matéria devastadora e que motivou ainda mais ódio da sociedade, Patrícia decidiu que seu sofrimento teria um fim. Impôs a si mesma que até o final de semana acabaria com tudo aquilo.

Sexta-feira: ela não almoçou, não jantou, nem tomou banho. Ficou chorando no próprio canto. Nesse dia o irmão foi expulso da balada por apalpar a bunda de uma mulher embriagada.

Sábado: ela comeu um pedaço de pão e correu pra se trancar no quarto. A melhor amiga pedia que ela desse notícias, mas não podia a visitar; o pai, além de proibi-la de sair de casa, não permitia que ela recebesse a visita de qualquer amigo ou amiga. Osvaldo, naquela mesma madrugada, assistiu no XVideosTube o vídeo de uma orgia bem movimentada. A mulher mais velha daquele vídeo teria, no máximo, 21 anos. Idade da filha tão odiada.

Domingo, 7h da manhã: Patrícia Elisa Belmiro disparou um único tiro.

Em outra parte do Brasil, Pedro ‘caiu na internet’. Foi flagrado fod**** gostoso; recebendo boq*** da amiga com a qual fazia da faculdade. A notícia também se espalhou pela sua cidade. Quando os amigos viram o vídeo, deram risada. Na empresa ele ficou conhecido como ‘o 3 pernas’. Passados 3 anos que seu vídeo ‘vazou’, Pedro se formou em direito e agora é doutor. Seu próximo sonho é ser juiz.

Já o sonho de Patrícia (…) o sonho de Patrícia era ser atriz, mas sua atuação de sucesso não foi exatamente como ela sonhou e sempre quis. Seu mais famoso vídeo foi o mesmo que a levou ao suicídio.

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