ISAC

POR FÁBIO CHAP

Isac morreu de tiro na esquina. Isac vendia maconha e cocaína. Quando a bala entrou, deu tempo de um suspiro. O que ele pensou, ninguém sabe. O que ele sentiu, talvez saudade. Saudade de tempos em que a vida não doía. No velório, ao perguntar pra tia, não fui surpreendido. Ela disse que foi dolorido todo o tempo do rapaz. Que a desgraça não foi capaz de trégua.

A mãe morreu de virose. O pai fugiu com a Rose. A vó perdeu uma perna quando ele tinha cinco. Cinco anos. Perdeu por trombose e vacilo de doutor. O cara tava cheirado que é pra aguentar virar uma pá de noite na labuta. Fez merda. Vó Dita amputou a perna esquerda quase inteira. Vó Dita até tentou ser forte. Colocar Isac no esporte. Mas o menino tinha tendência pra arriscar. Pra tentar quebrar o ciclo de miséria que nunca freava na família.

Isac tinha a pilha pra levantar uma grana. Mesmo que botando a mão na lama. Queria arroz, Nutella e a moto do ano; no começo não queria matar ninguém. Até o dia que se viu refém de uma .40. Era ele ou o gambé. Sem migué esfolou a massa cinzenta do polícia. Dois tiros. Um deles, fatal. Na cabeça. Chovia uma chuva fina, mas na mente era puro temporal.

Seis dias depois desce da moto um tal Sargento Andradina. Foi aí que Isac morreu de tiro na esquina. Isac vendia maconha e cocaína. Quando a bala entrou, deu tempo de um suspiro. O que ele pensou, ninguém sabe. O que ele sentiu, talvez saudade. Saudade de tempos em que a vida não doía. Isac talvez tenha sentido falta do que nunca existira: uma chance pra desconfiar da mentira que contaram por tanto tempo:

“O senhor é seu pastor e nada lhe faltará”.

Porque pra Isac faltou. Faltou uma voz falando manso e uma mão de mãe fazendo carinho quando ele ainda tinha 3 aninhos. Faltou troca de ideia e um cantinho pra refletir quando fizesse coisa errada e não cintada e porrada pelo corpo todo como era praxe do pai – quando presente – que chegou a maioria dos dias bêbado, muito louco.

Faltou a escola entender que ele não era bom de escrever, nem de falar ou pensar ciência, que lia mal e tinha certa impaciência pra desenhar ‘como foram as férias’, mas que era fera nos números, na lógica, etc e tal. O problema é que a matemática daquela porra de escola era tão mal explicada que qualquer interesse em contas, equações e tabuada virava tortura sem igual. A escola afastou Isac da chance de crescimento. Estudar desse jeito fazia ser um porre essa tal coisa de conhecimento.

Pra Isac faltou olhar pra TV e não se ver representado dando ou levando tiro só no Datena. Queria se ver no comercial porque família negra também come margarina e manteiga. Pra ele faltou entender porque olhava pras Paquita e não via nenhuma da cor da irmã; ao passo que olhava pra cadeia e era todo mundo da cor do pai.

 Faltou ter conhecido o mar e o teatro. Ter sido incentivado a amar não só a Maria Joaquina – porque por ela era chamado de macaco, burro, malandro de rapina -, mas também a amar Manu; trocar bilhetinhos escritos ‘te amo – I love you’. Teve também alguém que certo dia categorizou que o cabelo da Maria é que era bom; o da Manu era ruím. E na cabeça dele o mundo era mesmo assim. Quem nessa vida não quer tudo do bom e do melhor sem discernimento do que é status quo, não é mesmo?

Faltou Isac poder comer torresmo e jogar dominó com o avô – que nunca teve – ouvindo histórias de um tempo que se passou. De entender como os mais velhos têm no olhar as marcas de uma vida e que a Vó Dita era só uma parte de toda a estrutura. Não toda ela. Não toda miséria e tragédia reservadas pra uma vida vivida praticamente só na ala do drama, sem descanso pro riso, pra comédia.

Pra Isac ter tido a chance de ser sorrir ele nem precisava ter vivido uma história de cinema, bastaria que a sociedade o enxergasse e se resolvesse com o seguinte dilema:

“Espelho, espelho meu, no mundo existe algo além desse umbigo de bem que meu deus (de olhos azuis) me deu?”

Enquanto isso não acontece, Isac mata ou morre. O de hoje, morreu.

E nessa tragédia invisível não falta urubu sobrevoando, lá de cima gritando:

“O vagabundo mereceu!”

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