O PROBLEMA DA DESIGUALDADE SOCIAL

POR FÁBIO CHAP

O problema da desigualdade social não é só o acúmulo dos mais ricos. Muitos ‘chegaram lá’, na casa dos bilhões trabalhando pra caralho, propondo soluções reais para a humanidade. Mas muitos, não: 1/3 dos 1810 mais ricos do planeta herdou essa dinheiro. Ou seja, não produziu nada, não inventou nada, não solucionou nada.

‘Ah, se ele chegaram lá sem pisar em ninguém e de maneira ética, qual é o problema?’

O Bill Gates é genial. Conseguiu convencer alguns poucos bilionários que não é preciso acumular tantos bilhões pra serem felizes e produtivos. Bill Gates fez uma parte da classe bilionária doar uma enorme quantia de dinheiro para a caridade. Mas a classe bilionária não é composta só de Bill Gates e altruístas que gostam de pensar sobre o futuro da humanidade. Também há muita gente egoísta ali no meio. Como no nosso meio. A diferença é que os egoístas do andar de cima podem fazer muito mais estrago do que o egoísta que é seu vizinho.

E esse é o grande problema.

O dado que mais me preocupou no relatório de desigualdade que viralizou hoje é o seguinte: 8 pessoas têm 0,25% da riqueza do planeta. Até aí não soa tão absurdo. O que soa absurdo mesmo é o fato de 3,6 bilhões de pessoas também terem 0,25% da riqueza do planeta.

Tipo, calma, péra (…) você me pergunta: É sério que 50% das pessoas do planeta têm só 0,25% de toda riqueza que há nele? Eu te respondo: infelizmente, é sério. E perigoso também, por dois motivos:

a) A possibilidade de haver cada vez mais revoltas violentas da parcela mais pobre em relação à parcela mais rica;

b) A parcela mais rica simplesmente comprar a democracia. Com tanto dinheiro em jogo em tão poucas mãos, não fica difícil comprar o sistema. E simplesmente embalarem os pobres pra comer quando der fome.

A história nos dá muitos exemplos de como a miséria combinada com a desigualdade pode propiciar o caos. A revolução francesa é um dos exemplos. A população, à época, cansou dos excessos da aristocracia e chegou à conclusão que um dos primeiros passos deveria ser arrancar a cabeça de membros da elite.

A história – a contemporânea, inclusive – nos dá exemplos vívidos de empresas e empresários comprando parlamentares pra que esses atendam seus interesses privados e não necessariamente o interesse público.

O próprio sistema republicano é posto à prova com tanta desigualdade. ‘Res publica’ significa ‘coisa pública’. E uma república precisa de 3 coisas pra existir:

a) Um número razoável de pessoas;
b) Uma comunidade com interesses em comum;
c) Um consenso sobre as leis.

Dois desses pilares estão em cheque quando o sistema permite que 8 pessoas tenham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas:

1 – A comunidade de interesses em comum; afinal, nem de longe o interesse do mais pobre se parece com o do mais rico; Vira tudo um enorme jogo de interesses privados e nenhuma noção de ‘coisa pública’.

2 – O consenso sobre as leis.

Historicamente vivemos uma situação em que as elites querem – a todo custo – que o Estado proteja seus ganhos. E, como nota-se, conseguem facilmente alcançar esse objetivo. Já os pobres se digladiam numa competição desigual para sobreviver. É o famoso ‘socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres’. E essa distorção, em que o Estado protege uma casta e toca o foda-se pra massa, cedo ou tarde, vai impactar no modo como as populações das repúblicas do século 21 enxergam as leis. ‘Por que obedecer uma lei que não me beneficia em nada e só protege aqueles que me exploram?’ – bradará grande parte dos excluídos sociais.

Ou se freia imediatamente a soma desigualdade + miséria ou as Repúblicas e Democracias, em não muito tempo, irão rachar no meio.

E adivinhem quem vai rodar primeiro? Quem pode pagar por armas e segurança privada que não é. Nós pobres e de classe média vamos nos dilacerar em violência e guerras enquanto as elites políticas e econômicas vão seguir fazendo o que sempre fizeram:

Montanhas de dinheiro às custas de muito sangue.

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