EXISTE MOTIVO PRA VIRAR BANDIDO?

POR FÁBIO CHAP

bandido

Acho que a galera – principalmente a classe média de esquerda – fantasia muito as motivações da bandidagem.

Um cara não vira ladrão apenas e simplesmente porque não tem o que comer. Porque não tem leite pra dar pro filho. Porque tá morando num barraco todo fudido, que enche d’água durante as chuvas.

O interesse pelo crime vai muito além da necessidade básica: comida, teto, bem-estar mínimo.

Os caras entram pro crime porque a sociedade esfrega na nossa cara – e consequentemente na deles – que carrão é importante pra sobreviver nessa selva de pedra. Que camisa com jacaré no peito é importante pra ser visto como alguém importante. Que cordão de ouro, moto do ano e celular de última geração são os objetos que os farão conseguir algum respeito onde vivem.

O cara fica desde a infância recebendo esses mísseis publicitários no meio da fuça. Aí ele vai pra escola pública e o muleke que pagou 900 reais num Nike – parcelado em 10 vezes – é o destaque do rolê. O outro que tem um cordão de ouro e um Juliet é cotadíssimo pela menininhas. O outro é buscado todo dia na porta da escola pelo primo que tem um Vectra lacrado no insulfim, tão rebaixado que mal sobe uma lombada. Aí a cabeça do cara obviamente vai juntar os pontos.

“Porra, é isso. Pra ser respeitado aqui nessa porra eu preciso de um Nike, um cordão, um Juliet e um Vectra”.

Só que aí ele olha pra própria vida e não vê a menor condição de atingir tais metas no curto, nem no médio prazo. O pai tá há 40 anos limpando privada na empresa dos outros e nunca conseguiu sair do lugar. A mãe tá há 30 anos fritando hambúrguer na chapa da padaria e nunca conseguiu sair do lugar. Com os avôs e avós foi a mesma coisa.

Aí ele olha ao redor e vê o Buiu – ex-melhor amigo – conseguindo 400 reais por semana só pra carregar uma pochetinha pra lá e pra cá. Ele vê o Marquinho ganhando 1600 reais por semana só pra fazer o transporte de umas carga diferente vinda do Mato Grosso pra SP. Não precisa ser gênio pra perceber que o cara fica absolutamente tentado a optar pelo caminho mais fácil pra buscar o respeito que ele tanto quer.

E ninguém me contou tudo isso, não. Eu vi o crescimento desse ‘fenômeno’ da ostentação com meus próprios olhos estudando nas escolas que estudei, morando nos bairros que morei. Eu perdi amigos, colegas e vizinhos pra vida loka e nenhuma teoria me fala mais do que o que eu vi acontecer no meu entorno.

‘Aiii, mas meu vô veio da favela trabalhou a vida toda e hoje é um exemplo de honestidade pra gente da família.’

Filhote, o mundo não é seu vô. Nem todo mundo tem a resistência do seu vô pra trabalhar por 30/40 anos em situações que beiram a humilhação.

É fácil falar ‘não reaja’ tendo sucrilhos no prato todo dia pela manhã. É fácil concluir tudo sobre o caráter alheio e nunca se importar em analisar a bomba publicitária jogada no colo de cada um de nós.

“Coooompre. Coooompre. Tenhaaa. Tenhaaa. Ostenteee. Ostenteee.”

Aí depois de 20 anos que o cara ficou ouvindo que ele só seria gente se pudesse comprar, ter e ostentar, você vai falar pro cara ser?

Vinte anos depois ele quer que se foda o seu ‘ser’, ele quer mais é ter.

E isso torna o cenário muito mais complexo do que se o problema da segurança pública fosse só os mortos de fome, os sem teto. O problema da segurança pública hoje é totalmente ligado aos nossos fetiches de consumo como sociedade.

Por isso, sai dessa de pensar que na maioria das vezes o ladrão te passa a rasteira porque tá com fome, porque tá desesperado, que vai torrar tudo em crack. É muito além disso. O cara te rouba porque também quer comer Nutella. Também quer fazer rolê na moto do ano. Também quer, um dia que seja, comer a mais gostosa da noite brindando com Black Label. Também quer piscina no fundo do quintal. Também quer comer picanha até passar mal.

De muito pouco vai adiantar avançarmos o debate sobre segurança pública sem falarmos sobre ostentação privada.

Se hoje a festa é sua, a festa é nossa, saiba que antes de ser ladrão, tudo o que o cara queria era um pedaço do bolo que tanto esfregamos na cara dele.

Se eu tenho pena de bandido? Nenhuma. Cadeia tem que ser o destino de quem entra pro crime. A minha tentativa aqui é de compreender o que acontece 10/15 anos antes de ele enfiar um .38 na minha ou na sua cara.

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