JÚLIA

POR FÁBIO CHAP

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Júlia não aguentava mais: suicidou na frente dos pais. Quando criança, Júlia adorava vestidinhos rosa. Adorava pular, brincar, principalmente com Antônia, sua boneca desbotada que a mãe Paula guardava bem fundo no armário, mas nunca jogava fora.

Só que ela cresceu e a boneca ficou pra trás. Foi pra escola e nunca teve muita paz. Teve uma época em que Júlia queria dar um beijo na boca do Pedro. Não era tão cedo. Ela já tinha quinze. Ele nunca soube. Júlia nunca contou. Pedro a odiava, mesmo assim Júlia jurava que nunca havia sentido nada parecido.

Júlia, embora chorasse diariamente, sonhava com o futuro, construir uma casa sem muro – quem sabe um lar – viver à beira mar; ser tão feliz que da vida pediria bis. Mas as coisas não eram simples assim. O pai de Júlia era muito violento; batia nela a todo momento. Por vezes ficavam marcas. Por vezes havia sangue. Por muitas vezes havia nela um desejo incontrolável de dar fim em tudo. Nessas horas o pai de Júlia não ficava mudo. Agredia física e verbalmente. Dizia que ‘isso não era coisa de gente de bem; era coisa do Diabo, de quem não tem vergonha na cara’.

E olha que o pai de Júlia foi um cara bem liberal na adolescência. Fumou suas maconha, cheirou seus pó, transou sem dó por tudo quanto é lugar. Mas ‘da família ele havia de cuidar’. Na família que suou pra construir e sustentar ele não permitiria ‘pouca vergonha’; palavras dele próprio.

Mauro era covarde. Mas percebeu isso muito tarde. Júlia, sua filha, não estava feliz ou contente com o corpo que tinha, muito menos com as cintadas e socos que recebia. Júlia tinha uma tia que a entendia. A única pessoa do mundo que a entendia. Foi essa tia que escolheu seu nome, mas nunca ligou muito pra isso. Ela escolheu Tiago, mas Tiago nunca chegou a nascer; nasceu a Júlia, muito embora Júlia tivesse um pênis antes de morrer.

Paula e Mauro agora velam um Tiago que nunca existiu. Só que todos ouviram Mauro dizer em frente ao caixão:

– ‘Minha filha, por quê você partiu? Não, não (…) NÃO.’

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