A ÂNCORA

POR FÁBIO CHAP

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Gláucia é uma menina. Tem 14 anos. É gorda. Bem gorda. É alta. Bem alta. Na escola, Gláucia não pode fazer nada, absolutamente nada sem que mexam com ela. O apelido de Gláucia é Âncora.

Gláucia tenta jogar vôlei na educação física:

– Saca logo, Âncora – gritou Marcos – ao que toda a turma caiu na risada.

Gláucia esperando na fila da merenda:

– Vai repetir 18 ou 19 vezes hoje, Âncora? – Perguntou Glédson com cara de ironia.

Ontem mesmo a professora de matemática precisou se ausentar por 3 minutos. A sala toda aproveitou pra fazer uma ‘Ôla’. Mas ao invés de gritarem ‘Ôla’, gritaram ‘Âaaaancoráaaa’. Gláucia chorou. Chorou de soluçar, precisou até sair da sala. Mas é final da 8ª série, tá acabando, Gláucia vai conseguir fugir dos apelidos, do bullying, dessa estupidez humana que é encontrar riso na humilhação do outro. Tenho certeza que no 1º ano do colégio tudo isso vai passar. Gláucia vai pra uma escola bem longe do Rubens Moreira da Rocha. A única maneira de essa humilhação ter continuidade é se Gláucia encontrar alguém da escola antiga na escola nova. Alguém que conte a todo mundo que o apelido dela era Âncora, que estimule outros a darem a risada da humilhação.

Estamos no ano de 2001. No finalzinho. Tá acabando a 8ª série. Força, Gláucia.

(…)

Chegamos em 2002. 1º ano do colégio. Gláucia tá de escola nova: Colégio Clóvis Beviláqua. Primeira vez da vida que Gláucia faz escola particular. Primeira vez do Fábio também. Fábio veio da mesma escola pública que Gláucia. Por motivos diferentes, mas ambos foram parar ali. Gláucia ficou com muito medo quando percebeu um aluno da outra escola na sua nova escola. Será que Fábio contaria tudo pra todos? Será que todo o bullying voltaria com tudo?

– Âaaancora, você por aqui. – Fábio disse na frente de boa parte da sala nova. A expressão de Gláucia se fechou por completo. Seu pior pesadelo voltou. Fábio passou a contar pros amigos recentes todas histórias relacionadas a Gláucia nos anos anteriores. Dia após dia a feição dela se fechava. Talvez, uma depressão que se encaminhava.

É meio de 2002 e Gláucia, desolada, abandona a escola nova. Desde então, Fábio nunca mais teve notícias dela.

E até 2014/2015 essa história toda jamais perturbou Fábio. Não havia lembranças, nem perguntas para si mesmo sobre o ocorrido que fez Gláucia desistir de estudar no colégio que havia escolhido. Poderia ter sido ele o responsável pelo suicídio de uma pessoa? Passou a se perguntar. Poderia ele, pelo riso fácil, pela piada escrota, ter reavivado demônios na cabeça de Gláucia? Começou a se indagar.

Eu, Fábio, escritor dessa crônica nunca mais tive contato com Gláucia. Ter feito uma auto-crítica profunda mais de 10 anos depois desse ocorrido me fez bem e mal ao mesmo tempo. Bem porque você pensa ‘Caralho, ainda bem que dá pra mudar isso. Dá pra evitar que isso aconteça com outras pessoas daqui pra frente.’ Mal porque é muito bad constatar o quanto a gente já fez mal pra outras pessoas nessa vida; muitas vezes sem nem nos tocarmos disso.

Gláucia, não sei se você está em SP, no Brasil, viva, morta. O que sei é que escrevi tudo isso – nos expondo – pra te pedir profundas e sinceras desculpas. Há uma probabilidade de 99% de você jamais ler isso, nem ficar sabendo desse post. Mas eu precisava falar sobre isso. Escrever sobre isso. Porque sei que um post desses por aqui tem potencial de causar outras reflexões por aí.

Sei também que não adianta só falar, só ‘voltar como o cão arrependido’. Como medida prática pra evitar a perpetuação do bullying que cometemos com você, vou ensinar a minha filha a jamais tratar as pessoas como te tratamos. A jamais expor as pessoas como expomos. Na criação da minha filha, o respeito à diversidade é e continuará sendo pauta principal.

Na minha criação não foi assim. Eu fui criado num regime em que a gorda (muito mais do que o gordo) era apontada como tosca.

– ‘Olha que coisa ridícula essa barriga pra fora. Não é muita falta de semancol ter esse corpo e usar uma roupa assim?’ – Era esse tipo de coisa (pra pior) que eu ouvia em família e, infelizmente, absorvi por muitos anos.

Hoje enxergo com muita clareza o estrago que a gordofobia faz na vida das pessoas. É só observar melhor pra perceber que são homens (principalmente mulheres) rejeitadas na educação física, na pegação, na vida pública simplesmente por serem gordas. Precisamos, urgente, falar sobre isso. O meu modo foi fazendo essa auto-crítica pública.

E aí, topam entrar na auto-crítica pública? A quem do seu passado você pediria desculpas por ter cometido bullying? O que você pretende fazer pra que o bullying que você cometeu não seja mais reproduzido por aí?

Eu acredito profundamente que dá pro mundo ser muito melhor. A gente parar de ser cuzão é um ótimo primeiro passo.

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