CARLOTA

POR FÁBIO CHAP

tristedeprimida-e-sozinha

Carlota não aguentava mais o que via. Sentia que tava tudo afundando, sabe? O namoro foi pra casa do caralho. A mãe, depois de velha, estava, dia a dia, se tornando alcoólatra. Foda isso. O pai bateu numa enfermeira no asilo. O filho não a respeitava. Idolatrava o pai ausente e humilhava a mãe sempre presente, mas sempre tão fraca pra impor respeito.

Carlota via que não tinha jeito. Teria de dar um fim naquilo tudo. Suicídio. É disso mesmo que eu tô falando. Não tinha arma em casa, tampouco coragem de acabar com a vida na ponta de uma faca. ‘Remédio? Vai que eu só passo mal pra caralho e não morro.’ – ela pensava. Carlota cogitou comprar uma arma de brinquedo e sacar na frente de um carro de polícia. ‘Mas vai que eles só atiram na minha perna e eu fico presa por 10 anos conhecida como a idiota que sacou uma arma de brinquedo em frente a uma viatura?’

A vida era pura agrura. Carlota havia emagrecido 9kg no último ano. Seu plano, ultimamente ela levar uma vida minimamente digna, decente. Comer melhor, dormir melhor, trepar, sei lá, duas vezes no ano pelo menos. Mas ela transava muito menos que isso. A última vez foi em 2013. Haja dedo e calcinha pro lado. Carlota havia até enjoado de masturbação. 46 anos e uma puta vida de cão.

A melhor amiga de Carlota era Brenda, uma garota de 19 anos que ela só conhecia pela internet. O filho de Carlota desconfiava que Brenda dava em cima da mãe e começou a ameaçar a menina.

– Vadia, vai colar esse velcro nojento na puta que te pariu. Deixa a minha mãe em paz. – ele gritava pelo teclado.

– Você é louco, mulek. Eu sou a única que dá atenção pra sua mãe. Se não fosse por mim, ela já tinha se matado. Eu tenho namorado, você me respeita.

E assim, de treta em treta a vida seguia. E isso não significa que havia qualquer tipo de alegria. Era um inferno mesmo. O fato de ela ter um nome tipo Carlota talvez amenize pro leitor – nome engraçadinho, né? – mas não diminui em nada o horror da vida dela. O que ela mais queria era uma saída. Ninguém quer morrer, sofrer, a gente só quer a porra de uma saída.

O filho decidiu intimidar Brenda pessoalmente. A mãe caiu doente de cachaça dentro de casa. O pai precisava ficar amarrado dentro do asilo pra não agredir as pessoas que por ali estavam e passavam. Caos total.

3 de Dezembro de 2016 – Carlota decide abandonar tudo. Não teve luto. Não teve 50kg de bagagem. Pegou as roupas do corpo, comprou uma passagem pra casa da irmã que mora no interior do Paraná e foi pra lá. Sem nem avisar. Chegou dizendo que tava sofrendo demais. Tendo que dar conta de tudo sozinha. A irmã Carolina cagou e andou. Não era problema dela. Já tinha fugido pro Paraná que é pra não escutar um pio dessa família doente. O cunhado, que até então Carlota não conhecia, era Gerson. Um instalador de tv a cabo não muito preocupado com o mundo ao redor. Mais distraído, impossível. Gerson foi o único que tratou Carlota bem. Oferecia café e até cigarro. Tratou bem até demais. Certamente estava querendo comer a cunhada. Carolina, a irmã, não tava legal com aquela situação toda. Carlota era muito mais bonita que ela. ‘Um perigo uma mulher dessas dormir aqui em casa e acabar com o casamento dos outros.’ – pensava sobre a própria irmã.

6 de Dezembro de 2016 – Carlota volta pra São Paulo e seus olhos não poderiam estar mais inchados de tanto chorar. Ontem a noite acordou no meio da madrugada com o cunhado deitado ao lado e sorrindo. Passou a mão na cara e sentiu algo estranho. Reconhecia aquele cheiro. Gerson havia batido uma e gozado no corpo e no rosto de Carlota enquanto ela dormia.

7 de Dezembro de 2016 – Uma ambulância acelera em pleno Vale do Anhangabaú. Dentro dela a mulher que apresentei a vocês nessa história. Um paramédico dizia ao outro:

– Os batimentos estão ok. Pulso ok. O viaduto não era tão alto. Ela vai aguentar.

Bem, aguentar é o que Carlota tem feito toda a vida. Dessa vez, tudo que ela não queria era esse maldito verbo: aguentar.

5 minutos atrás saiu o resultado do exame mais importante: uma fratura seríssima na 14ª vértebra.

Carlota está, oficialmente, paraplégica.

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Sobre o autor: Fábio Chap é escritor, roteirista e colunista. Já tem obras publicadas como “Tive Um Sonho Pornô” e divulga seu trabalho nas redes sociais. O Contador tem o prazer de republicar alguns dos seus contos que sempre remetem a problemas sociais e reflexões sobre comportamento e vida.

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