#Retrato03: A PAZ DOS MORROS DOS PAULOS

Em mais uma jornada do Retrato da Comunidade nos deparamos com um distrito muito calmo e cheio de histórias: os Morros dos Paulos.

POR AILTON RODRIGUES
FOTOS ARICLENES SILVA
MORROS DOS PAULOS, S.M. DO GOSTOSO/RN

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A caminho dos Morros dos Paulos

O projeto Retrato da Comunidade embarcou em mais uma viagem neste último sábado (19), desta vez o Contador juntamente com Ariclenes Silva conheceu os personagens dos Morros dos Paulos, um distrito bem pequeno localizado a quase 45 quilômetros da sede, São Miguel do Gostoso.

Cerca de 200 pessoas residem na comunidade, que só recebeu este nome graças a um morador chamado Joaquim Paulo dos Santos que foi homenageado sendo o nome da escola local. Até então o nome do distrito era Baixa da Jurema, devido a sua localização ser entre morros próximo a uma praia.

A paz e tranquilidade que o distrito possui pode ser explicado pela sua população, quase não há crianças e jovens, mais de 80% são adultos e idosos.

Um detalhe que pode explicar o número pequeno de moradores é que por quatro anos (1964, 1965, 1974 e 1975) os Morros dos Paulos enfrentaram enchentes que deixaram o distrito cheio de lama, ou como os próprios nativos falam, em forma de “brejo” sendo necessário cavar valas para que a água acumulada chegasse ao mar. Nisso algumas casas foram construídas em cima dos morros e muitos resolveram procurar outro lugar para morar.

Nessa viagem bem legal destacamos duas personagens quase antagônicas e bem simpáticas, veja:

DONA TILINHA: APREENSÃO E ESPONTANEIDADE

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Dona Tilinha nos recebeu na sombra da sua mangueira.

Dona Tilinha (72 anos), tem três filhos sendo que dois destes moram em São Paulo, sempre gostou dos Morros dos Paulos, mas pelo fato de ter perdido seu marido a quase quatro meses sente-se insegura e tem medo disso.

Sempre gostou de trabalhar no labirinto, quando o marido pescava sempre esperava que ele chegasse com cação, pois adorava comer o peixe com leite de coco num pirão.

Fala saudosa do pai que faleceu em 1981 e lembra que por causa dele conheceu o esposo aos 20 anos de idade.

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Dona Tilinha sendo entrevistada por Ailton Rodrigues

“Casei com meu marido aos 20, ele era filho do dono do serviço que meu pai tinha vendido antes da gente ir para Santos”, disse Dona Tilinha.

Observamos que apesar de gostar do lugar que vive, nos olhos de Dona Tilinha há apreensão e ela credita isso ao fato de saber que “tem todo tipo de gente no mundo”.

Veja o vídeo de Dona Tilinha explicando como surgiram as principais árvores frutíferas no distrito:

DONA NETINHA: CORAGEM E FORÇA DE VONTADE

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Dona Netinha é uma grande mulher que aprendeu a ler sozinha.

Dona Netinha (75 anos), por sua vez, não pensa em deixar os Morros dos Paulos tão cedo e quer que os seus cinco irmãos que, como os filhos de Dona Tilinha, também moram em São Paulo, voltem para junto dela.

Dos filhos, já teve 16, mas apenas sete “escaparam” por causa da falta de cuidados que não existia na época: sem médico, sem remédios, sem precaução.

Também trabalhou no labirinto e fala que sua renda era grande parte proveniente disso, chegando a receber encomendas de Goiás. Isso possibilitou inclusive para que ela e sua família fugissem do “brejo” e pudessem construir sua casinha em um lugar mais alto.

Sobre seu casamento, ela já está a 54 anos casada com seu primo, conhecido como Seu Jocoso, e admite que jamais ficaram brigados, afinal ela nunca gostou de festas e ele também não.

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Dona Netinha e Seu Jocoso, 54 anos de união.

“Antigamente tinha mais gente aqui nos Morros, mas hoje é melhor, as coisas não são tão difíceis como naquele tempo”, confessa Dona Netinha.

Mas o que mais chamou nossa atenção foi o fato dela se alfabetizar sozinha, disse que aprendera a ler porque tinha o desejo de saber o que havia escrito na bíblia. Confira esse vídeo onde ela fala disso:

VENTOS DESCONFORTÁVEIS

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As torres eólicas fazem parte do cenário do distrito atualmente.

Uma unanimidade nos depoimentos das nossas personagens foi o fato do barulho causado pelos parques eólicos. O tempo todo ao qual estivemos nos Morros dos Paulos ouvimos um zumbido constante das torres e chega a ser um tanto chato.

Nossas entrevistadas disseram que por algumas noites não conseguem dormir e que até o acesso para praia está ameaçado pela proibição que a empresa proprietária impôs aos nativos.

“Aqui faz muito barulho de noite com essas torres e nem deixar irem na praia eles querem deixar agora”, declara Dona Tilinha.

“Essas torres são muito ruins, nos prejudicaram demais por esse ruído o tempo todo”, completa Dona Netinha.

Confira mais algumas imagens de Ariclenes Silva:

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Nós continuamos de olho no Retrato da Comunidade, até qualquer hora!

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