ANA SILCA – DIA DAS CRIANÇAS

ANA SILCA

Um conto de Bento XVII

Está chegando o dia! — dizia Ana alegremente.

Seu pai sabia do que se tratava, mas fingia não ouvir, era doloroso aos ouvidos.

Talvez eu queira só uma boneca de pano esse ano, nem ir ao parque. Pai, Você não está me ouvindo!

Infelizmente estava, sua voz chegava nos ouvidos na mesma velocidade que suas lágrimas queriam fugir dos olhos.

Papai está ocupado querida…

Você sempre está muito ocupado para mim.

Não era verdade, era por ela e não para ela que ele estava ocupado, mas deixemos isso de lado, vamos para Ana: magra, ágil, inteligente e aventureira, Ana Silca, que era para ser Silva, mas por um erro de audição da já velhinha Matilde seu nome fora escrito errado no cartório, e assim ficou, Silca.

Ana era dessas que gostava de “curiar” tudo, gostava de aprender de tudo e gostaria muito de ir à escola, mas não tinha tempo para isso. Estava sempre ajudando seu pai que sempre estava muito ocupado. Seu pai, Seu Silva, era feirante em uma das cidades do interior do nordeste, plantava sua própria mercadoria e gritava mais alto que todos na feira menos, é claro, que Ana.

Contudo os tempos estavam difíceis, Seu Silva tinha tido uma péssima plantação e da pouca quantidade que colhera menos ainda vendia, era pouco para vender e muito para consumir só, o que acabava ocasionando muitas frutas e vegetais podres na sua casa. Embora a chuva não chegasse em sua casa as contas sim, contas e mais contas e o pobre Silva colocava as mãos no fundo dos bolsos tateando-os, mas nem moedas encontrava.

Eram tempos difíceis… Sua mulher, Dona Maria, havia falecido vítima de um câncer. Obvio que não tinham como pagar o tratamento particular e assim tiveram que optar pelo plano público, Dona Maria fora visitada durante todos os dias, do primeiro ao último que esteve definhando nos corredores da longa fila do hospital, pobre Silva, queria chorar, mas estava ocupado demais enxugando as lágrimas de Ana. “Tudo vai ficar bem”, ele dizia, mas nem mesmo ele acreditava.

Era véspera do dia das crianças e na feira ao lado vendiam brinquedos desses de plástico e de pano, lembro de tê-la visto ao longe olhando a barraca de brinquedo e rindo, a imagem do seu sorriso me acompanha até os dias de hoje. Ela puxou a calça do pai.

Pai, se vendermos muito hoje, eu posso comprar uma boneca amanhã?

Seu pai estava se afogando em contas atrasadas, as vendas não iriam melhorar, da feira inteira sua mercadoria era a de menor qualidade pois há muito tempo que não colhia e tudo estava velho, mas eis que um sorriso lhe subiu ao rosto iluminando toda a escuridão da realidade.

Sim, mas vai ter que gritar mais alto que o João.

Disse ele apontando para o açougueiro que gritava toda a variedade de carnes que se resumiam em carne moída e de sol, MAS DA MELHOR QUALIDADE DO NORDESTE, dizia ele.

Ana fez que sim, seu sorriso batia de orelha a orelha, aquilo aqueceu meu coração. Ela parava os consumidores mostrando-lhes os tomates, alfaces e chuchus — os mais bonitos —, mas estava difícil convencer as pessoas de comprar aqueles vegetais, até Ana sabia que não eram muito bons, resumindo: venderam pouco.

Ana ficou triste, nunca trabalhara com tanto entusiasmo na vida, mas mesmo assim não conseguiu fazer muito. Ao cair do sol, com o céu rosado cobrindo a pequena cidade cercada por caatingas os feirantes iam retirando suas barracas lentamente, uns iam contando o dinheiro arrecadado, nenhum muito feliz, afinal, eram tempos difíceis.

Seu Silva, triste porem astuto aproveitou um momento de distração de Ana para correr até a barraca de brinquedos, pediu uma boneca de pano, lhe pagaria como pudesse, disse ser caso extremo e que por todos os santos conhecidos que a moça lhe ajudasse, ela ajudou, seu Silva pôs a boneca dentro da jaqueta escondendo-a e acompanhou Ana até em casa.

O caminho até em casa era longo, a lua se erguia no céu iluminando o caminho do pai e da filha. Diferente de sempre, dessa vez ela estava silenciosa, triste consigo mesmo, andava curvada, talvez se culpasse da má venda, seu Silva não se demorou.

Ana, sorria! Você tem talento para vender, é que o produto era ruim, foi só isso.

Eu sei pai, mas é que… A gente tá vendendo muito pouco ultimamente, quase nada, hoje foram só dois tomates e ainda pechincharam.

É a falta de chuva Ana, não tem como plantar, não foi culpa sua, está bem filha?

Sim, pai.

Ao chegarem em casa acenderam a lamparina, seu pai foi ler um livro com as páginas gastas do Graciliano Ramos, seu título era o tradutor de sua vida cotidiana: “Vidas Secas”, secas…

Essa palavra fazia seu Silva tremer, adormeceu lendo as páginas, as estrelas as vezes lhe piscavam de volta. Quando acordou, sua filha ainda estava dormindo, parecia um anjo na cama com lençol branco, por um bom tempo ele apenas a observou dormir, queria chorar por não poder dar tudo que ela merecia, o mundo inteiro e um pouco mais.

Para a melhor vendedora e filha do mundo”, o bilhete adornava o vestido azul da boneca de pano, ele deixou lá, bem onde ela pudesse ver, foi quando ele ouviu uma trovoada. O sol acabava de se levantar, mas não emitia muita luz, as nuvens cinzas não deixavam.

Foi preciso cinco minutos, talvez menos para que Ana fosse acordada com os pingos de chuva metralhando sua janela, seu sorriso dessa vez foi bem maior. Ela se levantou feliz e viu a boneca, talvez aquele fosse o dia mais feliz da vida dela, ela foi correndo abraçar o pai, mas a cama do quarto de Seu Silva nem havia sido mexida, ela não o encontrava em nenhum cômodo da casa, foi então que viu a porta da frente aberta e algumas gostas molhando o chão de cera vermelha. Apressou-se para fechá-la mas quando chegou lá viu seu pai todo molhado no quintal, foi inesquecível.

Seu Silva estava dançando na chuva, todo encharcado, as gotas da chuva se misturavam às suas lágrimas, Ana deixou a boneca no batente da porta e foi correndo para seu pai que lhe abraçou e girou-a. Foi a história mais tocante que ouvi sobre o assunto, não sei se foi real, mas o sorriso daquela menina me acompanha até os dias hoje.

Feliz dia das crianças.

Disse seu Silva, que como muitos é apenas um pai, aliás, Pai.

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