PÁGINAS DO FACEBOOK RECRUTAM JOVENS PARA ATUAREM COMO GAROTAS DE PROGRAMA EM EVENTOS

Seguindo o embalo do artigo da nossa amiga Maria Auxiliadora, venho replicar aqui uma importante reportagem do O Globo, que remete ao tema das redes sociais.

Ricardo André
São Miguel do Gostoso/RN

Ficharosa2

A prostituição é cor-de-rosa no Facebook. Com mais de 107 milhões de usuários brasileiros, a rede social criada por Mark Zuckerberg tem um lado obscuro protegido pela expressão “ficha rosa”. Uma espécie de ‘abre-te-sésamo’, que leva o internauta a navegar por timelines destinadas à seleção de jovens modelos para atuarem como garotas de programa. A Polícia Civil investiga os páginas, mas avista que enfrenta bastante dificuldades.

Um universo paralelo, aparentemente livre dos filtros que já levaram a rede social a bloquear imagens de nudez, mesmo que o pelado em questão fosse um bebê, como aconteceu em julho de 2011, quando a rede social censurou a capa do álbum Nevermind, do Nirvana, há páginas voltadas à promoção de encontros com “clientes nível AAA”, conforme ressalta a comunidade Ficha Rosa Rio de Janeiro. Criada em setembro passado, a timeline traz na capa a imagem de uma jovem sob uma chuva de dólares, no detalhe ao lado, cédulas aparecem em meio ao decote de uma mulher.

Logo abaixo, no espaço destinado a explicar o objetivo da página, é possível ler: “selecionamos para eventos ficha rosa. Envie sua foto e telefone para xxxxx@gmail.com. Somos 100% discretos, clientes cadastrados nível AAA”. Nos bastidores do universo fashion, a expressão ficha rosa é usada para definir modelos que aceitam fazer programas. Já os homens são tratados por ficha azul.

Se comparada a outras timelines, a página Ficha Rosa Rio de Janeiro parece purista. Na Acompanhantes RJ Club, as imagens de nu são explícitas e trazem ainda detalhes, digamos, anatômicos das moças, além de telefones de contato.

Bia, de 26 anos, é uma loura de medidas generosas. A jovem moradora do Flamengo, na Zona Sul, não exibe o rosto na timeline, mas não esconde o restante do corpo. Apesar da beleza, nunca pensou em ser modelo. Aos 21 anos, poucos meses após a morte do pai, foi convidada para trabalhar em um estande promocional numa feira de veículos em São Paulo:

— Fui levada por uma amiga que já tinha modelado, mas aderiu aos eventos ficha rosa para conseguir se sustentar no Rio. Ela, sim, veio de Goiânia acreditando que seria uma modelo famosa. Como ela, eu não queria passar horas de pé, trabalhando como vendedora de lojas de grife para ganhar uma merreca — dispara a loura.

Noiva há três anos, Bia leva uma vida dupla. Em casa, ninguém imagina que a ex-aluna do religioso Colégio Santo Agostinho ganhe dinheiro como garota de programa e não como representante comercial. Durante a conversa ora ela se diz Bia, ora Renata, ora Letícia. Difícil precisar o verdadeiro nome. Bia admite que paga uma espécie de taxa aos responsáveis pela contração para eventos, feiras e até mesmo para o circuito da fórmula 1, que tem uma timeline exclusiva no Facebook: “Ficha Rosa GP Brasil”, ilustrada pela silhueta de uma modelo nua e com uma gravata rosa presa à cintura.

— A participação em grandes eventos é apenas a fachada. Assim posso viajar sem despertar a atenção — disse Bia, que cobra até R$ 1 mil por programa de 2 horas.

A navegação por essas timelines mostra que o esquema de recrutamento das jovens não se limita ao Rio. Há páginas semelhantes em vários estados e até no exterior. Caso da Lupitascortgirl, onde uma jovem brasileira oferece os serviços de escort girl (acompanhante) para despedidas de solteiro em Paris. Na imagem usada para ilustrar a página, a jovem aparece fazendo um striptease para um marmanjo de queixo caído. Há ainda páginas de brasileiras que fazem programas em Portugal.

Confrontados com as imagens das páginas no Facebook, os delegados Alessandro Thiers e Renata Araújo, da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), instauraram uma investigação para tentar identificar os responsáveis pelas timelines voltadas à prostituição. A policial ressalta ainda a dificuldade em iniciar esse tipo de apuração:

— Demora. Pedir a autorização judicial para descobrir o usuários e depois provar que ele oferece mulheres em troca de dinheiro — explicam.

O crime nesses casos é de exploração sexual, que tem pena prevista de um a quatro anos de reclusão, mais multa. A punição pode aumentar caso fique comprovado que a mulher era obrigada a se prostituir ou se for menor de 18 anos.

Os delegados acrescentam que os representantes do Facebook no país não costumam colaborar com a investigações. No caso da censura à capa do álbum da banda Nirvana, a rede social alegou à época que proibiu a foto do bebê nu porque ela se enquadrava no aviso: “o Facebook não permite fotos que ataquem um indivíduo ou grupo, ou que contenham nudez, uso de drogas, violências ou outras violações dos Termos de Uso”. Em nota, a agência que representa a rede social informou:

“Trabalhamos ara garantir que nossa comunidade esteja apta para conectar e engajar mais de 1,3 bilhões de pessoas com seus amigos e família de maneira respeitosa e segura. A qualquer hora que as pessoas vejam conteúdos que violem nossas normas, pedimos que reportem esse conteúdo, assim podemos tomar as medidas apropriadas. Quando o conteúdo reportado viola nossas normas é removido do Facebook. Disponibilizamos uma forma fácil de comunicar potenciais violências e temos um time dedicado a analisar e responder todas as denúncias, diariamente, em mais de 20 línguas”.

CPI NO SENADO

O uso de sites na Internet para o aliciamento e a exploração da prostituição foi investigado, em 2011, pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas no Senado federal. A investigação sobre atividades de recrutamento de modelos que na verdade acabam atuando na prostituição.

À época, a CPI tinha como relatora a senadora Marinor Brito (PSOL-PA), que recebeu a sugestão para investigar anunciantes e sites do presidente da SaferNet Brasil, Thiago Tavares, um dos colaboradores da CPI. Na ocasião, ele citou uma lista de cerca de 700 sites de recrutamento de modelos que, deforma anônima, foram denunciados à SaferNet. Segundo ele, as falsas agências de modelo não possuem sede nem endereço fixo e só operam pela internet.

Na ocasião, Thiago Tavares informou ter uma relação de contas de e-mail suspeitas de serem usadas pelas supostas agências para aliciar jovens tanto para o tráfico interno quanto internacional associado à exploração sexual.

O presidente da SaferNet explicou que os anúncios na internet costumam utilizar o código ficha rosa quando querem indicar que estão recrutando modelos para participar de eventos (feiras, congressos e festas fechadas, por exemplo) que, ao mesmo tempo, fiquem disponíveis para programas sexuais. Parte dessas jovens, segundo ele, não tinham conhecimento do sentido da expressão e se tornavam vítimas de situações inesperadas e abusos. A CPI, contudo, foi encerrada sem avançar na apuração.

A SaferNet Brasil é uma associação civil de direito privado, fundada em 2005 por um grupo de cientistas da computação, professores, pesquisadores e bacharéis em Direito, a organização surgiu para desenvolver pesquisas e projetos sociais voltados para o combate à pornografia infantil na Internet brasileira.

O Globo

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